terça-feira, 21 de julho de 2026

O povo paga, o mercado lucra: a entrega das Linhas 11, 12 e 13 da CPTM


Enquanto milhões de trabalhadores acordam antes do amanhecer para enfrentar longas viagens até o trabalho, o Governo do Estado de São Paulo comemora a entrega de mais três linhas da CPTM à iniciativa privada. O discurso é conhecido: eficiência, modernização, investimentos e melhoria dos serviços. A propaganda é bonita. A realidade, porém, costuma ser bem diferente para quem está todos os dias na plataforma esperando um trem.

As Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade não foram entregues abandonadas. Muito pelo contrário. Durante anos, bilhões de reais do dinheiro público foram investidos na compra de novos trens, modernização das estações, melhorias na via permanente e ampliação da capacidade do sistema. Foi a população paulista quem financiou essa transformação por meio dos impostos.

Agora que o patrimônio foi recuperado e valorizado, sua operação passa para a iniciativa privada.

A pergunta que o governo evita responder é simples: se a CPTM conseguiu construir um sistema moderno com recursos públicos, por que a operação precisa ser entregue ao mercado justamente agora?

Os defensores da concessão afirmam que a concorrência e a gestão privada trarão mais eficiência. Mas a experiência recente das Linhas 8 e 9 deixou um alerta que não pode ser ignorado. A população assistiu a uma sucessão de falhas, atrasos, panes e transtornos que afetaram milhares de passageiros. Cada interrupção significou trabalhadores chegando atrasados ao serviço, estudantes perdendo aulas e famílias esperando horas para voltar para casa.

Mesmo durante o processo de transição das Linhas 11, 12 e 13, usuários já relataram dificuldades provocadas por falhas operacionais e pela falta de informações claras. Para quem depende do transporte coletivo, pouco importa quem administra os trilhos; o que importa é conseguir embarcar, chegar ao destino e ser tratado com respeito.

O problema é que existe uma diferença fundamental entre a lógica do serviço público e a lógica do mercado.

O transporte público é um direito social. Para uma empresa privada, ele também precisa gerar lucro. É justamente aí que mora a preocupação de trabalhadores, especialistas e movimentos sociais: quando o lucro se torna prioridade, o interesse coletivo corre o risco de ficar em segundo plano.

Não se trata de demonizar a iniciativa privada. Trata-se de reconhecer que trem metropolitano não é um produto qualquer. É um serviço essencial que movimenta milhões de pessoas todos os dias e influencia diretamente a economia, a educação, a saúde e a qualidade de vida.

O governo afirma que haverá fiscalização rigorosa. A população espera que isso aconteça de fato. Porque contratos podem prometer muito no papel, mas quem julga seu sucesso é o passageiro que enfrenta a plataforma lotada às seis da manhã.

Não basta inaugurar placas, anunciar bilhões em investimentos ou divulgar campanhas publicitárias. O verdadeiro indicador de sucesso é simples: menos atrasos, mais segurança, informação transparente e respeito ao cidadão.

A população paulista já pagou pela construção desse patrimônio. Não pode aceitar pagar novamente com atrasos, superlotação e perda da qualidade do serviço.

O transporte sobre trilhos não pode ser tratado apenas como uma oportunidade de negócios. Ele deve continuar sendo entendido como um direito da população e uma responsabilidade do Estado.

Porque quando o lucro sobe aos trilhos, quem corre o risco de ficar parado na estação é sempre o trabalhador.

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