Nos anos 1970, comunicar-se era difícil, limitado e desigual — mas, paradoxalmente, o povo pensava mais coletivamente. Telefone fixo era privilégio de poucos. Quem precisava falar com alguém usava a telefonia coletiva, enfrentava fila, horário e espera. O telégrafo ainda existia, restrito a empresas e ao Estado.
A informação chegava pelo rádio, pela televisão e pelo jornal impresso. O jornal vinha atrasado, é verdade, mas cumpria um papel importante de aprofundar os fatos. O rádio e a TV informavam mais rápido, porém havia algo essencial: todo mundo recebia basicamente a mesma notícia.
Isso não significava verdade absoluta, mas criava uma base comum. A partir dela, o povo discutia, discordava, tirava conclusões próprias. A opinião nascia da conversa no quintal, no trabalho, no bar, na fila do ônibus. Havia conflito de ideias, não confusão organizada.
A televisão como espaço coletivo e popular
A TV era um evento social. Vizinhos se reuniam para assistir ao noticiário, às novelas, aos programas de auditório, aos humorísticos e ao futebol. Filme tinha dia e horário. Ir ao cinema era um programa coletivo, não um consumo solitário.
A comunicação, apesar de controlada por poucos grupos empresariais, ainda era vivida coletivamente. Isso fortalecia vínculos sociais, senso de pertencimento e até a capacidade crítica do povo trabalhador.
Anos 1980: o consumo começa a substituir o encontro
Com a expansão do telefone fixo nos anos 1980, a comunicação ficou um pouco mais acessível. Mas, junto com ela, chegaram o videogame e o videocassete. O mercado descobriu que era possível trocar convivência por consumo.
A TV começou a perder espaço como ponto de encontro. Cada um passou a se isolar na própria diversão. Menos conversa, menos debate, menos construção coletiva. Aqui começa um processo perigoso: o esvaziamento da consciência social.
Não foi acidente. Foi projeto.
Anos 1990: mobilidade, velocidade e superficialidade
Nos anos 1990, o telefone celular surge como símbolo de modernidade. O telefone deixa de estar preso à parede e passa a acompanhar o indivíduo. Falar de qualquer lugar vira regra. Mas essa mobilidade vem junto com a aceleração da vida.
Tudo fica urgente. Tudo vira imediato. O tempo para pensar diminui. O tempo para consumir aumenta.
Depois de 2000: muita informação, pouca consciência
Com a internet, o discurso era de democratização da comunicação. Mas o que se consolidou foi outra coisa: a mercantilização total da informação.
Redes sociais, aplicativos de mensagem, plataformas de streaming e celulares cada vez mais sofisticados criaram a ilusão de liberdade. Na prática, entregaram o controle da informação a grandes corporações e aos algoritmos.
Hoje, a informação chega de todos os lados: algumas verdadeiras, muitas mentirosas, outras deliberadamente manipuladas. Não para informar, mas para confundir. Não para conscientizar, mas para induzir comportamento.
Influencers substituíram jornalistas. Opinião virou produto. Mentira bem embalada viraliza mais que verdade incômoda. O povo deixou de ser sujeito da comunicação e virou alvo dela.
A fábrica de idiotas não é erro — é estratégia
A fragmentação da sociedade interessa ao capitalismo. Pessoas isoladas não se organizam. Pessoas confusas não lutam. Pessoas manipuladas defendem interesses que não são os seus.
O algoritmo não quer verdade, quer engajamento. Não quer consciência, quer cliques. Não quer transformação social, quer lucro.
O resultado é uma sociedade hiperconectada e politicamente desarmada. Muita opinião pronta. Pouca reflexão. Muito ódio direcionado. Pouca organização popular.
Comunicação é disputa de poder
A tecnologia não é neutra. Nunca foi. A questão central é: quem controla a comunicação e a serviço de quem ela opera.
Ou a comunicação serve para libertar, ou serve para dominar. Ou fortalece o povo, ou fortalece o capital.
Resgatar a comunicação como ferramenta de organização, educação política e consciência de classe é tarefa urgente. Não basta consumir informação: é preciso disputar narrativa, construir mídia popular e devolver ao povo o direito de pensar por conta própria.
Olhar para o passado não é nostalgia. É aprendizado. Só entendendo de onde viemos é que poderemos decidir, conscientemente, para onde queremos ir.
No Política de Quintal, a gente não acredita em neutralidade. Acredita em lado. E o nosso lado é o do povo organizado, informado e consciente.
