segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Quem Esta do outro lado da linha? A era em que atender telefone virou um risco

 


De simples ligações indesejadas a golpes sofisticados: o telefone, que já foi símbolo de aproximação, hoje também virou ferramenta de medo, fraude e manipulação

Houve um tempo em que o telefone tocava e a primeira reação era atender.

Podia ser um parente, um amigo, uma notícia, uma oportunidade de trabalho ou simplesmente alguém querendo conversar.

Hoje, para muita gente, o telefone toca e a primeira pergunta é outra:

“Será que é golpe?”

E não é paranoia.

É resultado de anos de ligações abusivas, telemarketing insistente, robôs que ligam e desligam, falsas centrais bancárias, cobranças de serviços que a pessoa nunca contratou, supostas compras realizadas em bancos onde o cidadão nem possui conta e até criminosos utilizando gravações de voz para simular familiares em situações de emergência.

A tecnologia avançou. Mas, em muitos casos, avançou também a capacidade de enganar.

O telefone virou território de desconfiança

Quem nunca recebeu uma ligação dizendo:

“Estamos entrando em contato para confirmar uma compra de R$ 4.850 em seu cartão.”

O problema é que a pessoa sequer possui cartão naquele banco.

Ou então:

“Estamos falando do seu banco. Identificamos uma movimentação suspeita.”

A partir daí começa o teatro.

O falso atendente sabe o nome da vítima, às vezes conhece os quatro últimos números do cartão, sabe o banco utilizado ou apresenta informações suficientes para parecer legítimo.

Então vem a pergunta aparentemente inocente:

“Para confirmar que é o senhor mesmo, poderia informar alguns dados?”

É aí que mora o perigo.

O golpe da falsa central telefônica já foi alvo de investigações e operações policiais. Em 2025, a Polícia Federal desarticulou grupos que utilizavam falsas centrais para obter dados bancários das vítimas. Em maio de 2026, outra operação da PF investigou fraudes que movimentaram mais de R$ 2 milhões em contas de aproximadamente 30 correntistas da Caixa.

Não estamos falando mais de pequenos estelionatários improvisando uma história.

Estamos falando de organizações criminosas especializadas.

E quando o banco onde você nem tem conta liga?

Essa é uma das estratégias que mais provocam confusão.

O telefone toca:

“Aqui é do Banco X. Identificamos uma compra realizada no seu cartão...”

Só existe um problema:

você não tem conta naquele banco.

A tendência de muita gente é desligar imediatamente. Mas outros acabam entrando na conversa, tentando entender o que está acontecendo. E é justamente nesse momento que o criminoso começa a conduzir a vítima.

O objetivo não é necessariamente descobrir se você é cliente daquele banco.

Pode ser descobrir quais bancos você utiliza, quais cartões possui, qual é seu CPF, seu telefone, sua data de nascimento ou outros dados que poderão ser utilizados posteriormente.

A ligação pode ser apenas uma etapa da fraude.

O golpe também pode começar com uma ligação muda

Existe outro fenômeno que muita gente conhece: o telefone toca, você atende e ninguém fala.

Alguns segundos depois, a ligação cai.

Parece apenas irritante.

Mas a própria Anatel identifica as chamadas abusivas em diferentes categorias, incluindo as chamadas automatizadas e as chamadas utilizadas para identificar números que têm maior probabilidade de atendimento.

Em outras palavras: se você atende, seu número pode passar a ser considerado um número “ativo” e mais interessante para determinados sistemas de telemarketing ou fraudadores.

É por isso que aquela sequência de ligações mudas não deve ser tratada simplesmente como uma brincadeira.

O “sequestro” que acontece dentro do telefone

Talvez uma das modalidades mais cruéis seja o falso sequestro.

O telefone toca.

Do outro lado, uma voz desesperada:

“Mãe, me ajuda!”

Depois, outra pessoa assume a ligação:

“Estamos com seu filho.”

A vítima entra em pânico.

Em versões mais antigas do golpe, o criminoso dependia apenas da imaginação e de informações obtidas durante a própria conversa.

Agora, a tecnologia acrescentou uma nova arma: a clonagem ou imitação de voz.

A Anatel alertou em 2026 para golpes que utilizam inteligência artificial, incluindo áudios, imagens e vídeos manipulados capazes de imitar, com alto grau de realismo, pessoas conhecidas.

Isso muda completamente o jogo.

A voz, que durante décadas foi uma espécie de identidade, também pode ser falsificada.

Até o INSS virou argumento para golpe

Outro exemplo é a chamada falsa relacionada à prova de vida.

O criminoso liga dizendo ser do INSS:

“Seu benefício poderá ser suspenso.”

“Precisamos confirmar seus dados.”

“É necessário fazer a prova de vida.”

“Informe seus documentos.”

O problema é que o próprio INSS é claro: não liga para os cidadãos para tratar de prova de vida e pedir dados pessoais ou pagamentos.

Em 2026, o instituto reforçou que a prova de vida é realizada, em regra, por cruzamento automático de bases governamentais. Quem precisa verificar sua situação deve utilizar o Meu INSS ou a Central 135.

Portanto, se alguém ligar dizendo ser do INSS e pedir dados, senha, pagamento ou transferência para “regularizar” a prova de vida:

DESLIGUE.

O criminoso falsifica até o número que aparece na tela

Talvez esse seja um dos aspectos mais preocupantes.

Muita gente pensa:

“Se o número aparece como sendo de determinada cidade ou empresa, deve ser verdadeiro.”

Não necessariamente.

Existe uma técnica conhecida como spoofing, pela qual o número de origem apresentado ao destinatário pode ser adulterado.

Ou seja, o criminoso pode tentar fazer a chamada parecer que veio de um número legítimo.

Isso explica por que algumas ligações parecem tão convincentes.

A Anatel vem adotando medidas para combater esse problema, aumentando a rastreabilidade das chamadas e determinando mecanismos para bloquear tráfego irregular e adulterações.

Desde 2025, também avançou a implementação de mecanismos de autenticação e identificação das chamadas, justamente para permitir maior segurança sobre quem está realmente originando a ligação.

Mas e as operadoras? E o governo?

É importante reconhecer que existem medidas sendo tomadas.

A Anatel vem enfrentando o problema há anos.

Entre as iniciativas estão:

  • o Não Me Perturbe;

  • o prefixo 0303 para telemarketing ativo;

  • bloqueios de empresas e usuários que abusam da rede;

  • combate às robocalls;

  • monitoramento de grandes chamadores;

  • autenticação das chamadas;

  • mecanismos de rastreabilidade;

  • combate ao spoofing;

  • fiscalização e aplicação de multas.

Segundo dados divulgados pela própria Anatel, as medidas adotadas já impediram mais de 248 bilhões de chamadas indesejadas, além de mais de 1.200 bloqueios de empresas e quase R$ 40 milhões em multas.

São números impressionantes.

Mas existe uma conclusão igualmente importante:

se bilhões de chamadas precisaram ser bloqueadas, é porque o problema atingiu uma escala gigantesca.

O 0303 ajuda, mas não resolve o problema

O prefixo 0303 foi criado para permitir que o consumidor reconheça chamadas de telemarketing ativo.

Mas é fundamental entender uma coisa:

0303 não significa “ligação segura”.

Significa que a chamada deveria estar identificada como telemarketing.

Golpistas podem utilizar números falsificados ou outras estratégias para tentar escapar dos mecanismos de identificação.

Por isso, uma ligação que parece oficial não deve ser automaticamente considerada verdadeira.

O “Não Me Perturbe” é uma ferramenta importante

Quem está cansado de receber ofertas de serviços de telecomunicações e determinadas ofertas de crédito consignado pode utilizar gratuitamente o Não Me Perturbe.

Desde 2025, a Anatel determinou a adoção da plataforma como referência setorial para consumidores que optam por não receber chamadas publicitárias de telecomunicações.

Mas há uma limitação importante:

o bloqueio não impede determinadas ligações, como contatos relacionados a prevenção a fraudes, cobranças e algumas confirmações.

Ou seja, o cadastro ajuda a combater telemarketing, mas não transforma o telefone em uma fortaleza contra golpes.

A tecnologia está correndo atrás do crime

Esse é o ponto central.

Os criminosos também utilizam tecnologia.

Eles usam bancos de dados, automação, robôs, engenharia social, falsificação de números, aplicativos de mensagem e, cada vez mais, inteligência artificial.

Enquanto isso, governos e empresas precisam criar mecanismos capazes de identificar rapidamente quem está por trás de uma chamada.

A Anatel já está avançando nessa direção.

A chamada autenticação e identificação de chamadas busca justamente aumentar a confiança do consumidor, permitindo identificar de maneira mais clara quem está ligando e verificar se o número apresentado corresponde realmente à origem da chamada.

É uma mudança importante.

Mas não pode ser a única.

O cidadão não pode ser transformado em seu próprio sistema de segurança

Existe algo profundamente errado quando a pessoa precisa passar o dia desconfiando do próprio telefone.

O trabalhador recebe uma ligação e não sabe se deve atender.

O aposentado recebe uma chamada e teme perder seu benefício.

O consumidor recebe uma mensagem e teme que sua conta tenha sido invadida.

A mãe ou o pai ouve a voz de um filho e precisa perguntar:

“Você está realmente falando comigo?”

Isso revela uma crise de confiança.

A tecnologia deveria facilitar a vida.

Não deveria transformar cada ligação em uma possível ameaça.

A regra de ouro: quem liga é que precisa provar quem é

Talvez seja hora de inverter completamente a lógica.

Se alguém liga dizendo ser banco, não forneça informações para provar que você é você.

Desligue.

Abra o aplicativo oficial do banco.

Ligue para o número oficial que aparece no cartão ou no aplicativo.

Se for o INSS, consulte o Meu INSS ou ligue para o 135.

Se for uma empresa, procure o canal oficial.

Nunca utilize o número fornecido pelo próprio desconhecido que está tentando convencê-lo.

E principalmente:

nenhum banco sério precisa que você informe sua senha, código de autenticação ou faça uma transferência para “cancelar” uma operação.

E talvez seja por isso que ninguém mais atende telefone

Chegamos a uma situação curiosa.

O telefone foi criado para aproximar as pessoas.

Hoje, ele frequentemente as afasta.

O cidadão olha para uma chamada de número desconhecido e pensa:

“Não vou atender.”

Não porque não queira falar.

Mas porque não sabe quem está do outro lado.

E essa desconfiança não nasceu do nada.

Foi construída por anos de ligações abusivas, telemarketing agressivo, vazamento e circulação de dados, golpes cada vez mais sofisticados e uma indústria criminosa que descobriu no telefone uma ferramenta barata e poderosa para alcançar milhões de brasileiros.

A tecnologia avançou.

Agora precisamos garantir que a segurança avance na mesma velocidade.

Porque comunicação deveria aproximar.

Informação deveria proteger.

Tecnologia deveria libertar.

E telefone deveria voltar a ser simplesmente aquilo que um dia foi:

um instrumento para aproximar pessoas — e não uma porta aberta para o golpe.

POLÍTICA DE QUINTAL

No fim das contas, a pergunta não é apenas:

“Por que recebo tantas ligações?”

A pergunta é muito maior:

Quem tem nossos dados? Quem pode utilizá-los? Quem lucra com eles? E quem protege o cidadão quando essa informação cai nas mãos erradas?

A defesa do consumidor também é defesa da cidadania.

E, numa sociedade cada vez mais digital, privacidade, segurança e informação confiável são direitos — não privilégios.

Fontes oficiais utilizadas na apuração: a Anatel informa que já bloqueou mais de 1.200 empresas e que mais de 248 bilhões de chamadas indesejadas deixaram de ser realizadas; também mantém medidas contra robocalls, spoofing e grandes chamadores. (Serviços e Informações do Brasil)

A autenticação de chamadas começou a ganhar implementação efetiva a partir de 2025, permitindo verificar melhor a origem da chamada e combater a falsificação de números. (Serviços e Informações do Brasil)

O Não Me Perturbe foi ampliado pela Anatel em 2025 como plataforma setorial para consumidores que não desejam chamadas publicitárias, embora não bloqueie contatos legítimos de prevenção a fraudes, cobranças e algumas outras situações. (Serviços e Informações do Brasil)

Sobre o INSS, a orientação oficial de 2026 é especialmente importante: o INSS não liga nem vai à residência para tratar de prova de vida e pedir dados pessoais ou pagamentos. A consulta deve ser feita pelo Meu INSS ou pelo 135. (Serviços e Informações do Brasil)

A Polícia Federal também vem realizando operações recentes contra organizações especializadas em fraudes bancárias e falsas centrais telefônicas, inclusive em 2026. (Serviços e Informações do Brasil)


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Dois dias bastaram: quando o lucro entra nos trilhos, o povo fica na plataforma

 

Mal se passaram dois dias desde que as Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade deixaram de ser operadas pela CPTM e já milhares de passageiros voltaram a enfrentar um velho conhecido do transporte sobre trilhos em São Paulo: atrasos, interrupção da circulação, falta de informação e muito sofrimento para quem depende do trem para trabalhar.

Na manhã desta quinta-feira (23), um incêndio em uma composição provocou a paralisação das linhas, gerando superlotação, longas filas, passageiros caminhando pelos trilhos e uma rotina de caos para trabalhadores, estudantes e idosos. Enquanto isso, milhares de pessoas aguardavam, sem qualquer previsão concreta, a normalização do serviço.

É evidente que a investigação técnica deverá apontar as causas do incidente e as responsabilidades pelo ocorrido. Mas há uma reflexão política que não pode ser ignorada.

O Governo do Estado apresentou a concessão das Linhas 11, 12 e 13 como símbolo da eficiência da iniciativa privada. Disse que haveria mais qualidade, mais tecnologia e melhor atendimento. Entretanto, antes mesmo que a população pudesse perceber qualquer benefício concreto, o que viu foi um sistema mergulhado em mais um dia de caos.

A pergunta que fica é inevitável: quem assume o prejuízo do trabalhador que perdeu o dia de serviço? Quem paga pela consulta médica perdida? Quem indeniza o estudante que perdeu a prova? Quem devolve as horas arrancadas da vida de milhares de pessoas presas em plataformas lotadas?

A resposta é sempre a mesma: ninguém.

Quando se fala em concessão, costuma-se destacar bilhões em investimentos, contratos sofisticados e promessas de eficiência. Mas quase nunca se fala sobre quem realmente sustenta esse sistema: o passageiro.

Essas linhas não nasceram prontas. Durante décadas, foram construídas, ampliadas e modernizadas com recursos públicos. Bilhões de reais investidos pelo povo paulista transformaram a infraestrutura ferroviária em um patrimônio moderno e estratégico. Agora, sua operação passa para uma empresa privada sob o argumento de que o mercado administrará melhor aquilo que foi financiado pela sociedade.

Essa lógica merece ser debatida.

O transporte público não pode ser tratado apenas como uma oportunidade de negócio. Ele é um direito social previsto na Constituição e um instrumento fundamental para reduzir desigualdades. Quando a prioridade passa a ser o equilíbrio financeiro do contrato, existe o risco de que a qualidade do serviço deixe de ocupar o primeiro lugar.

Os defensores da concessão afirmam que problemas operacionais podem ocorrer em qualquer sistema ferroviário, seja público ou privado. Isso é verdade. Nenhum sistema está livre de falhas. Mas também é verdade que, quando uma concessão é apresentada como solução para todos os problemas, ela naturalmente passa a ser cobrada pelos resultados prometidos.

Hoje, milhares de trabalhadores sentiram, mais uma vez, o peso de um sistema que falhou justamente quando mais precisavam dele.

Não se trata apenas de um trem parado.

É o salário perdido.

É o desconto no holerite.

É a criança esperando o pai chegar.

É o paciente que perde uma consulta.

É a diarista que não consegue completar a jornada.

É o estudante que perde uma avaliação.

Enquanto isso, contratos, planilhas e discursos seguem funcionando normalmente.

Quem parou foi o povo.

Mais do que discutir quem opera os trilhos, é preciso discutir qual deve ser a prioridade do transporte público paulista. O interesse coletivo ou a lógica do mercado?

Os passageiros não querem saber quem administra o trem. Querem respeito.

Querem informação.

Querem segurança.

Querem chegar ao trabalho e voltar para casa.

Porque transporte público não é mercadoria.

É um direito.

E quando esse direito falha, quem paga a conta continua sendo exatamente quem sempre pagou: o trabalhador paulista.

terça-feira, 21 de julho de 2026

O povo paga, o mercado lucra: a entrega das Linhas 11, 12 e 13 da CPTM


Enquanto milhões de trabalhadores acordam antes do amanhecer para enfrentar longas viagens até o trabalho, o Governo do Estado de São Paulo comemora a entrega de mais três linhas da CPTM à iniciativa privada. O discurso é conhecido: eficiência, modernização, investimentos e melhoria dos serviços. A propaganda é bonita. A realidade, porém, costuma ser bem diferente para quem está todos os dias na plataforma esperando um trem.

As Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade não foram entregues abandonadas. Muito pelo contrário. Durante anos, bilhões de reais do dinheiro público foram investidos na compra de novos trens, modernização das estações, melhorias na via permanente e ampliação da capacidade do sistema. Foi a população paulista quem financiou essa transformação por meio dos impostos.

Agora que o patrimônio foi recuperado e valorizado, sua operação passa para a iniciativa privada.

A pergunta que o governo evita responder é simples: se a CPTM conseguiu construir um sistema moderno com recursos públicos, por que a operação precisa ser entregue ao mercado justamente agora?

Os defensores da concessão afirmam que a concorrência e a gestão privada trarão mais eficiência. Mas a experiência recente das Linhas 8 e 9 deixou um alerta que não pode ser ignorado. A população assistiu a uma sucessão de falhas, atrasos, panes e transtornos que afetaram milhares de passageiros. Cada interrupção significou trabalhadores chegando atrasados ao serviço, estudantes perdendo aulas e famílias esperando horas para voltar para casa.

Mesmo durante o processo de transição das Linhas 11, 12 e 13, usuários já relataram dificuldades provocadas por falhas operacionais e pela falta de informações claras. Para quem depende do transporte coletivo, pouco importa quem administra os trilhos; o que importa é conseguir embarcar, chegar ao destino e ser tratado com respeito.

O problema é que existe uma diferença fundamental entre a lógica do serviço público e a lógica do mercado.

O transporte público é um direito social. Para uma empresa privada, ele também precisa gerar lucro. É justamente aí que mora a preocupação de trabalhadores, especialistas e movimentos sociais: quando o lucro se torna prioridade, o interesse coletivo corre o risco de ficar em segundo plano.

Não se trata de demonizar a iniciativa privada. Trata-se de reconhecer que trem metropolitano não é um produto qualquer. É um serviço essencial que movimenta milhões de pessoas todos os dias e influencia diretamente a economia, a educação, a saúde e a qualidade de vida.

O governo afirma que haverá fiscalização rigorosa. A população espera que isso aconteça de fato. Porque contratos podem prometer muito no papel, mas quem julga seu sucesso é o passageiro que enfrenta a plataforma lotada às seis da manhã.

Não basta inaugurar placas, anunciar bilhões em investimentos ou divulgar campanhas publicitárias. O verdadeiro indicador de sucesso é simples: menos atrasos, mais segurança, informação transparente e respeito ao cidadão.

A população paulista já pagou pela construção desse patrimônio. Não pode aceitar pagar novamente com atrasos, superlotação e perda da qualidade do serviço.

O transporte sobre trilhos não pode ser tratado apenas como uma oportunidade de negócios. Ele deve continuar sendo entendido como um direito da população e uma responsabilidade do Estado.

Porque quando o lucro sobe aos trilhos, quem corre o risco de ficar parado na estação é sempre o trabalhador.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

O Contexto Urgente: Por Que a Creche Precisa Funcionar Até as 21h?

A necessidade de creches que funcionem até as 21h (ou mais tarde) não é um capricho, mas uma demanda real e crescente gerada pela transformação do mercado de trabalho e pela realidade das famílias brasileiras, especialmente as chefiadas por mulheres solo.

Enquanto o horário comercial padrão (9h às 18h) está morrendo, o serviço público de educação infantil ainda está preso nos anos 80. Este é o contexto que torna o funcionamento noturno uma questão de sobrevivência e igualdade.

1. A Revolução Silenciosa: 12% dos Trabalhadores estão na Noite

Dados do IBGE analisados pela Câmara Municipal do Recife mostram uma mudança brutal no perfil do trabalhador brasileiro: entre 2010 e 2018, as vagas de trabalho noturno pularam de 4% para 12% dos empregos formais .

Isso significa que milhões de pais e mães não têm o "luxo" de trabalhar das 8h às 17h. Eles estão em:

· Shoppings e comércio 24h: Funcionam até as 22h ou 23h.

· Bares, restaurantes e delivery: O pico de trabalho começa às 19h.

· Postos de combustíveis e indústrias: Turnos que vão da meia-noite ao amanhecer.

· Saúde: Enfermeiras e técnicas que cumprem plantões noturnos em hospitais.

Para essas famílias, a creche "padrão" que fecha às 17h (ou, no máximo, às 19h em alguns casos) é inútil. A mãe precisa sair para o trabalho às 18h, mas a creche já fechou. O resultado é o abandono do emprego ou a colocação da criança em risco.

2. A Dupla Jornada da Mulher: Estudo e Trabalho

A necessidade se agrava quando falamos de mães solo de baixa renda. Para sair da pobreza, elas precisam estudar. E a universidade pública ou o EJA (Educação de Jovens e Adultos) funcionam, majoritariamente, à noite (das 19h às 22h30) .

Estudos acadêmicos apontam que a creche noturna é um "instrumento de efetivação do princípio da igualdade da mulher" . Sem um local seguro para deixar o filho enquanto estuda, a mulher é forçada a abandonar o curso, perpetuando o ciclo de pobreza e dependência.

"Várias mulheres, principalmente estudantes universitárias que têm filhos, precisam desse serviço para poderem estudar e/ou trabalhar, deixando seus filhos (as) em ambientes seguros." (Indicação Legislativa - Toritama/PE) 

3. O Pesadelo da "Jornada Estendida" (Das 7h às 19h)

Algumas poucas creches oferecem o chamado "horário estendido" até as 19h. Embora útil para quem trabalha no comércio diurno, para o trabalhador noturno isso é insuficiente.

A realidade é cruel: se a creche fecha às 19h e o pai entra no shopping às 18h, ou a mãe entra na faculdade às 19h15, não há compatibilidade. A criança precisa de acolhimento enquanto o adulto trabalha/estuda (das 19h às 22h), não só no final da tarde.

4. Onde isso já funciona (e funciona bem)?

Apesar das dificuldades, existem exemplos que comprovam que é possível conciliar o direito da criança com a necessidade do adulto.

· Modelo Português (Clube dos Pequenos - Braga): Esta creche inovou ao funcionar seis dias por semana, com horário alargado até as 21h30 (e até a meia-noite em alguns casos). O foco são pais com horários rotativos e trabalhadores noturnos. A rotina é adaptada: após as 18h30, as crianças jantam, escovam os dentes e vão dormir na própria creche, aguardando o pai buscar após o trabalho. Há até serviço de "babysitting" para eventos pontuais .

· Modelo Brasileiro (São Bernardo do Campo): A cidade aprovou em 2025 (aguardando regulamentação) a criação de Unidades de Atendimento Integral. A proposta integra Educação (para o aspecto lúdico) e Assistência Social (para o cuidado). A grande sacada é que o tempo de permanência da criança não pode exceder 10 horas diárias, garantindo que ela volte para casa e durma em família, mas permitindo que o horário de funcionamento da unidade vá até o fim da noite .

5. O Lobby do Sono: O Grande Impasse

Se o contexto social pede creche até as 21h, a pedagogia e a medicina pedem cautela. Esse é o principal ponto de tensão.

Argumento Técnico (Contra): Especialistas em primeira infância são radicalmente contra. Míriam Matos Amaral (UFPA) classifica a creche noturna como um "direito adultocêntrico" — resolve o problema do adulto, mas fere os direitos da criança . Maria Thereza Marcílio (RNPI) afirma: "Creche é lugar de criança brincar... À noite, as crianças devem estar em convívio da família e dormindo" .

O Ministério da Educação (MEC) já se posicionou: isso não é atendimento educacional, e sim política de assistência social. O Fundeb (fundo da educação) não pode ser usado indiscriminadamente para isso .

Solução de Consenso: A resposta está no meio-termo adotado por São Bernardo e Portugal:

1. Até as 21h, não como "escola", mas como "acolhimento". A criança deve jantar e dormir no local, não ficar em aula.

2. Limite de 10h diárias. Se a criança entrou às 13h, ela sai às 23h no máximo. Se entrou às 7h, sai às 17h. Isso evita a exploração da jornada infantil.

3. Vinculação estrita: Só tem direito quem comprovar vínculo empregatício ou matrícula escolar noturna .

Conclusão do Contexto

A necessidade de creches até as 21h é legítima e urgente porque o mundo do trabalho não respeita o ciclo diurno da educação. Ignorar isso significa condenar milhares de crianças ao abandono ou suas mães à pobreza.

O caminho não é transformar a creche num "depósito noturno", mas sim criar unidades híbridas (Educação + Assistência Social) onde a criança tenha seu direito ao sono respeitado (dormindo no local) enquanto o adulto exerce seu direito ao trabalho ou estudo.

O debate não é mais "se" devemos ter creches noturnas, mas "como" implementá-las com qualidade e respeito à infância.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Por Que a Divulgação de Pesquisas Eleitorais Deveria Ser Restrita aos Partidos: Elas Manipulam, Não Informam!

Uma análise sobre como os números induzem o voto útil, o voto jogado fora e distorcem a vontade popular

Todo período eleitoral, o mesmo ritual se repete: pesquisas são divulgadas diariamente, manchetes anunciam quem “subiu” ou “desceu”, e o debate público se transforma em um jogo de números.

A pergunta que poucos fazem é: essa deveria ser a função de uma pesquisa?

A divulgação pública das pesquisas de intenção de voto faz mais mal do que bem. Elas deveriam ser instrumentos internos dos partidos — usadas para aferir estratégias, ajustar campanhas e orientar decisões táticas. Nada além disso.

O motivo é simples: pesquisa divulgada não informa o eleitor; induz o voto.


O problema central: a máquina de indução

Quando uma pesquisa é publicada, ela deixa de ser apenas um retrato do momento para se tornar um agente ativo de transformação daquele mesmo cenário.

Dois fenômenos psicológicos ajudam a explicar esse efeito — ambos amplamente estudados pela literatura política internacional.

1. Efeito Bandwagon (“carona na vitória”)

O eleitor tende a votar em quem aparece na frente. As razões variam:

  • desejo de estar ao lado do vencedor;

  • percepção de que “todo mundo está votando naquele candidato”;

  • sensação de segurança na escolha majoritária;

  • preguiça cognitiva para analisar propostas e trajetórias.

Pesquisas acadêmicas indicam que esse comportamento é mais comum entre eleitores com menor envolvimento político e menor repertório crítico.


2. Efeito Underdog (“voto no azarão”)

O movimento contrário também existe.

Alguns eleitores migram para candidatos que aparecem atrás nas pesquisas por compaixão, protesto ou senso de justiça. É o chamado “voto no azarão” — motivado menos por convicção política e mais pela ideia de “dar uma chance”.

Nos dois casos, a decisão deixa de ser baseada em propostas, ideias ou projetos de governo. O voto passa a ser guiado por números.


O eleitor induzido e a manipulação estratégica

A divulgação pública de pesquisas explora justamente o comportamento do eleitor emocionalmente influenciável.

Grande parte do eleitorado não acompanha política com profundidade. Diante de gráficos, percentuais e manchetes, reage por impulso.

Dois comportamentos são particularmente problemáticos:


1. O voto útil: quando o eleitor abandona sua preferência

Quantas vezes alguém já disse:

“Vou votar em X porque Y não tem chance.”

A pesquisa divulgada convence o eleitor a desistir do candidato de sua preferência para evitar o chamado “voto desperdiçado”.

O resultado é:

  • achatamento do debate político;

  • exclusão de candidaturas alternativas;

  • concentração artificial de votos;

  • fortalecimento de candidaturas já consolidadas.

Tudo isso baseado em números que podem estar desatualizados, metodologicamente frágeis ou simplesmente errados.


2. O voto “jogado fora”: o voto simbólico sem consequência prática

Na direção oposta, existe o eleitor que decide votar em um candidato sem chances reais apenas como gesto de protesto ou “consciência tranquila”.

É o voto movido pela emoção simbólica — não pela construção efetiva de força política.

Em muitos casos, esse comportamento também é alimentado pelas pesquisas, especialmente quando determinados grupos desejam pulverizar adversários ou fragmentar campos políticos.


Pesquisa interna: o uso correto da ferramenta

A pesquisa eleitoral possui um papel legítimo e importante. O problema não é sua existência — é sua divulgação pública.

Dentro dos partidos, a pesquisa serve para:

  • identificar quais pautas têm maior adesão;

  • avaliar a eficácia da comunicação;

  • direcionar recursos de campanha;

  • entender regiões estratégicas;

  • testar cenários eleitorais;

  • antecipar movimentos dos adversários.

Ou seja: é uma ferramenta de inteligência política e planejamento estratégico.

Quando os números são divulgados ao público, deixam de servir apenas à análise e passam a influenciar diretamente o comportamento do eleitor.

Nesse momento, a pesquisa deixa de medir a eleição — e começa a interferir nela.


Objeções e respostas

“Mas o eleitor tem direito à informação”

Sim. Mas informação sobre o quê?

Informar o eleitor deveria significar apresentar:

  • propostas;

  • planos de governo;

  • histórico político;

  • posicionamentos;

  • viabilidade administrativa;

  • impactos econômicos e sociais das medidas defendidas.

Divulgar intenção de voto não informa sobre qualidade de governo. Apenas informa o comportamento dos outros eleitores — algo que não deveria determinar uma decisão individual.


“Sem pesquisa, como evitar desperdiçar o voto?”

Essa lógica já nasce contaminada pela própria existência das pesquisas.

O chamado “voto desperdiçado” só existe porque os números publicados convencem o eleitor de que apoiar determinados candidatos seria inútil.

Mas democracia não deveria funcionar como aposta em corrida de cavalos.

O voto coerente é aquele alinhado à convicção do eleitor — não à posição do candidato em um ranking momentâneo.

Se todos votassem por convicção, o fenômeno do “voto útil” perderia força e o sistema político se tornaria mais plural.


O impacto nos dias finais da eleição

Não é coincidência que diversos países tenham restrições à divulgação de pesquisas nos dias que antecedem a votação.

O período final da campanha é justamente quando o eleitor está mais vulnerável à influência psicológica dos números.

Nesse estágio:

  • cresce o medo de “perder voto”;

  • aumenta a pressão pelo voto útil;

  • manchetes passam a substituir debates;

  • campanhas deixam de discutir ideias e passam a discutir percentuais.

A eleição vira espetáculo estatístico.


A democracia não deveria ser um jogo de apostas

A crítica não é à pesquisa eleitoral como instrumento técnico.

A crítica é ao uso público e massificado desses números como mecanismo de influência política.

Divulgar pesquisas não é apenas retratar a realidade eleitoral. É participar ativamente da construção dessa realidade.

E quando milhões de pessoas tomam decisões influenciadas por tendências artificiais, a democracia deixa de ser uma disputa de ideias e passa a funcionar como dinâmica de mercado, torcida ou efeito de manada.


Para reflexão

Pesquisa eleitoral deveria existir, sim.

Mas como ferramenta estratégica interna dos partidos — não como instrumento diário de indução coletiva.

O eleitor não precisa saber em quem “os outros” pretendem votar.

O eleitor precisa saber:

  • quem apresenta melhores propostas;

  • quem possui capacidade administrativa;

  • quem tem coerência política;

  • quem representa seu projeto de sociedade.

Só assim a política deixa de ser tratada como corrida de apostas e volta a ser uma verdadeira disputa de ideias.


O debate está aberto.

Mas, por favor: que ele não seja baseado apenas na última pesquisa que apareceu na manchete do dia.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O Conservadorismo de Dois Lados: Quando o Rico e o Pobre Abraçam a Ordem (e a Esquerda Estranha)


Uma análise sobre como a defesa do status quo se manifesta tanto na elite quanto na periferia — e por que a esquerda precisa encarar esse espelho

 

Nos últimos anos, tem se tornado cada vez mais comum no debate progressista uma certa perplexidade: como é possível que trabalhadores, moradores de periferia e pessoas em situação de vulnerabilidade econômica defendam pautas consideradas conservadoras? Ao mesmo tempo, a esquerda já aprendeu a reconhecer o conservadorismo da elite — aquele que defende cortes de impostos para os ricos, moralidade familiar seletiva e liberdade econômica como dogma. Mas o conservadorismo do pobre ainda provoca estranhamento.

Este artigo propõe um exercício incômodo, sob a ótica da esquerda: entender que o conservadorismo não é monopólio de classe, mas se reveste de roupagens distintas — e igualmente funcionais à manutenção da ordem — quando vem de cima ou de baixo.

O conservadorismo do rico: a defesa do privilégio

Na visão da esquerda, o conservadorismo das classes abastadas é mais fácil de decifrar. Ele é, antes de tudo, um instrumento de perpetuação de poder. O rico conservador quer:

  • Estado mínimo para o bolso, mas Estado máximo para o controle social (segurança pública repressiva, criminalização da pobreza).
  • Moral familiar tradicional como discurso, mas não necessariamente como prática — vide divórcios, abortos clandestinos e hipocrisias de classe média alta.
  • Mérito como justificativa para a própria posição, ignorando heranças, contatos e oportunidades estruturais.

Esse conservadorismo é confortável: ele nunca pede que o rico abra mão de nada. Pelo contrário, sacraliza a propriedade privada e naturaliza a desigualdade como fruto do esforço individual.

O conservadorismo do pobre: a ilusão da ordem

O que a esquerda tem mais dificuldade de compreender — e, por vezes, de acolher — é o conservadorismo vindo de quem mais sofre com a desordem do capitalismo. Trata-se de um fenômeno complexo, que mistura:

  • Medo real da violência: em periferias abandonadas pelo Estado, a defesa de pautas como “mais polícia” ou “pena dura” nasce da ausência de alternativas. Não é adesão ao fascismo, é desespero.
  • Valores religiosos como rede de apoio: igrejas e comunidades de fé frequentemente ocupam espaços deixados vazios pelo poder público. O conservadorismo moral, nesse contexto, vem atrelado à única estrutura de acolhimento disponível.
  • Ascensão social pelo empreendedorismo: a crença de que “basta trabalhar duro” é uma ideologia poderosa para quem não tem acesso à educação crítica ou a sindicatos fortes.

A esquerda tradicional, ao ridicularizar essas crenças como “falsa consciência”, muitas vezes empurra essas pessoas ainda mais para a direita. O conservadorismo do pobre não é, em sua essência, uma defesa da elite — é uma tentativa desesperada de criar previsibilidade num mundo caótico.

As contradições que a esquerda precisa encarar

Se a esquerda quer construir hegemonia, precisa superar dois erros simétricos:

  1. Tratar todo conservador como inimigo de classe — ignorando que, na base, muitos valores conservadores são, na verdade, demandas por segurança, estabilidade e pertencimento.
  2. Romantizar a pobreza como progressista por natureza — a dura realidade é que comunidades vulneráveis também reproduzem machismo, LGBTfobia e racismo, muitas vezes de forma mais aberta do que a elite hipócrita.

A diferença central, na análise de esquerda, é que o conservadorismo do rico é estratégico e consciente: ele sabe que defende seus privilégios. Já o conservadorismo do pobre é reativo e defensivo: uma resposta à precariedade, não um projeto de poder.

E agora?

Construir pontes não significa abandonar a crítica. A esquerda pode — e deve — combater o conservadorismo onde ele se manifesta, mas precisa fazê-lo com lentes de classe. Isso significa:

  • Oferecer segurança pública democrática, não apenas criticar a polícia.
  • Dialogar com religiosidades sem se render ao fundamentalismo.
  • Propor organização coletiva contra o empreendedorismo solitário.

E, acima de tudo, entender que chamar o pobre de 'atrasado' — ou rotulá-lo de 'pobre de direita' como sinônimo de atraso — só fortalece a direita. Porque substitui a escuta pelo desprezo de classe, confunde efeito (valores conservadores) com causa (precariedade e ausência do Estado) e, ao humilhar em vez de disputar ideias, entrega de bandeja para o conservadorismo estratégico da elite exatamente quem poderia ser aliado na transformação.

            O conservadorismo do rico merece confronto. O do pobre, escuta — e propostas melhores. Só assim a esquerda deixará de tratar a própria base como estranha e começará, de fato, a transformar a realidade.


terça-feira, 24 de março de 2026

A Vida Além do Trabalho: Estamos Perdendo o Direito de Viver?

 Desde os primeiros anos de vida, o ser humano entra em uma rotina intensa, marcada por horários, obrigações e pouco tempo livre. O que começa na infância como uma necessidade de cuidado e educação, ao longo dos anos se transforma em uma lógica contínua de produtividade, muitas vezes à custa da convivência familiar e da qualidade de vida.

15 a 17 anos dedicados aos estudos (da infância ao ensino superior) 35 anos ou mais de trabalho contínuo Entre 70 mil e 90 mil horas trabalhadas ao longo da vida E ele não pode ser consumido quase totalmente pelo trabalho.

Ainda bebês, milhões de crianças passam até 10 horas por dia em creches. Na infância e adolescência, a rotina segue com 4 a 6 horas diárias de escola, podendo chegar a 9 horas no ensino integral. Já na juventude, muitos passam a conciliar estudo e trabalho, ampliando ainda mais a carga diária de responsabilidades.

Ao chegar à vida adulta, esse ciclo se intensifica.

Uma vida dedicada ao estudo e ao trabalho

Se analisarmos o tempo total investido ao longo da vida, os números chamam atenção:

Esses números mostram que uma parcela significativa da existência humana é dedicada a produzir, cumprir metas e garantir a sobrevivência. Mas existe uma pergunta inevitável: quanto tempo sobra para viver?

O tempo que não volta: família e convivência

Quando se considera uma rotina comum de trabalho no Brasil, o cenário se torna ainda mais preocupante.

Uma jornada diária pode incluir: 8 a 10 horas de trabalho; 1 a 3 horas de deslocamento; 6 a 8 horas de sono.

Na prática, restam apenas 2 a 4 horas livres por dia, muitas vezes consumidas pelo cansaço físico e mental.

Esse modelo impacta diretamente o convívio entre pais e filhos, as relações familiares, a saúde mental e o equilíbrio emocional. Não é raro que famílias passem a conviver de fato apenas aos finais de semana  e, mesmo assim, de forma limitada.

Escala 6x1: rotina ou desequilíbrio?

Um dos pontos mais debatidos atualmente é a chamada escala 6x1  seis dias de trabalho para apenas um de descanso.

Na prática, isso representa:

Cerca de 300 dias de trabalho por ano

Aproximadamente 48 dias de descanso anual

Esse modelo levanta questionamentos importantes. É possível manter qualidade de vida com apenas um dia de descanso? Existe espaço real para lazer, família e descanso? Até que ponto isso afeta a saúde física e mental dos trabalhadores?

Especialistas apontam que jornadas prolongadas e poucos períodos de descanso não aumentam necessariamente a produtividade e podem, na verdade, gerar o efeito contrário, com queda de desempenho e aumento do esgotamento.

Precisamos repensar o modelo

O debate sobre o tempo de trabalho não é apenas econômico. Ele é social, humano e urgente. Discutir alternativas como redução da jornada de trabalho, maior flexibilidade, modelos híbridos ou até a semana de quatro dias não é um luxo é uma necessidade diante de uma sociedade cada vez mais sobrecarregada.

Conclusão: viver não pode ser um detalhe

Ao longo da vida, o ser humano dedica décadas ao estudo e ao trabalho. No entanto, o tempo para viver plenamente  estar com a família, cuidar da saúde, descansar e aproveitar a vida  acaba sendo reduzido a pequenos intervalos.

A grande questão que fica é:

Estamos organizando a sociedade para viver melhor ou apenas para produzir mais?

Repensar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal não é apenas uma escolha individual  é um debate coletivo sobre o tipo de sociedade que queremos construir.

Porque, no final das contas, o tempo é o recurso mais valioso que existe.

Por Wilson Guimarães Jr.
Colunista do blog Política de Quintal

quarta-feira, 11 de março de 2026

Quando a Política Vira Ódio, a Democracia Entra Em Risco

 

Da divergência democrática ao discurso de eliminação do adversário: o Brasil precisa decidir se quer debate ou guerra política.

Nos últimos anos o Brasil atravessou uma transformação preocupante na forma como parte da sociedade passou a enxergar a política. O que antes era disputa de ideias passou a ser tratado como uma guerra entre inimigos. E quando a política vira guerra, a democracia passa a correr perigo.

Escrevo estas linhas não apenas como observador da política, mas como alguém que vive esse ambiente há décadas. Sou filiado ao Partido dos Trabalhadores desde o ano 2000. Não por modismo, nem por conveniência eleitoral. Por convicção. Sempre enxerguei o partido como fruto das lutas do povo trabalhador e da defesa de direitos sociais.

Mas ser petista, para mim, nunca significou odiar quem pensa diferente. Democracia existe justamente para que ideias distintas disputem projetos de país.

Minha trajetória começou como assessor parlamentar de deputado estadual, função que exerci de 2006 a 2012, período em que aprendi, na prática, o funcionamento do poder público e o valor do diálogo com a população.

Posteriormente, assumi responsabilidades dentro da organização partidária, atuando como Secretário de Organização entre 2011 e 2013, contribuindo para a estruturação política e o fortalecimento da militância.

Também tive a honra de exercer o cargo de Secretário de Finanças e Planejamento do partido entre 2017 e 2025, período em que contribuí para a organização administrativa e financeira da estrutura partidária.

A partir de 2015, passei a exercer a função de Chefe de Gabinete de vereador, cargo que ocupo até hoje, trabalhando diariamente na interlocução entre o poder público e as demandas da população.

Para alguns, a política é apenas um jogo de poder.
Para mim, sempre foi serviço público, responsabilidade social e compromisso com as pessoas.

Mais do que cargos ou funções, o que define minha trajetória é a dedicação diária em buscar soluções para os problemas da população e contribuir para uma sociedade mais justa.

Quem chega ao gabinete traz apenas um problema e a esperança de encontrar alguém disposto a ajudar.

Essa é a política real. A que acontece longe da espuma das redes sociais.

Mas foi justamente nesse ambiente digital que começou a se espalhar um veneno perigoso: a ideia de que o adversário político não é alguém com uma visão diferente de país, mas um inimigo que precisa ser eliminado.

Durante o período mais intenso da polarização política, tornou-se comum ouvir frases como “tem que acabar com os petistas”, “tem que varrer a esquerda do mapa”. Para alguns, isso parecia apenas retórica inflamada de campanha. Mas palavras têm peso. Palavras constroem ambientes. E ambientes de ódio produzem consequências.

O mais inquietante é quando esse discurso sai das redes sociais e entra dentro das nossas próprias casas. Quando a política passa a dividir famílias, amizades e comunidades.

Tenho familiares que apoiaram e ainda apoiam Jair Bolsonaro. Isso, por si só, nunca foi problema. Famílias sempre tiveram divergências políticas. O problema começa quando a divergência se transforma em desumanização.

Foi então que uma pergunta passou a me perseguir.

Se a democracia tivesse sido rompida no Brasil — se um golpe tivesse realmente acontecido — qual teria sido o destino de milhões de brasileiros identificados com ideias de esquerda?

Professores, Sindicalistas, Militantes, Trabalhadores, Estudantes, Pessoas comuns.

E a pergunta mais dura de todas: quando essas vítimas fossem nossos próprios parentes, nossos amigos, nossos vizinhos… o que fariam aqueles que pensam diferente?

Chorariam seus mortos?

Ou aplaudiriam o algoz?

A história mostra que as grandes tragédias políticas começam exatamente quando uma sociedade aceita a desumanização do outro. Quando um grupo passa a acreditar que o outro não merece existir.

É assim que nascem os regimes autoritários.

A democracia não exige que todos pensem igual. Exige apenas que reconheçamos o direito do outro existir.

O Brasil não precisa de messias políticos nem de salvadores da pátria. Precisa de maturidade democrática.

Podemos discordar. Podemos votar em candidatos diferentes. Podemos defender projetos distintos de país.

O que não podemos aceitar é transformar brasileiros em inimigos dentro da própria nação.

Porque quando a política vira ódio, ninguém vence.

E quando a democracia morre, todos perdem.


Por Wilson Guimarães Jr.
Colunista do blog Política de Quintal