quinta-feira, 23 de julho de 2026

Dois dias bastaram: quando o lucro entra nos trilhos, o povo fica na plataforma

 

Mal se passaram dois dias desde que as Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade deixaram de ser operadas pela CPTM e já milhares de passageiros voltaram a enfrentar um velho conhecido do transporte sobre trilhos em São Paulo: atrasos, interrupção da circulação, falta de informação e muito sofrimento para quem depende do trem para trabalhar.

Na manhã desta quinta-feira (23), um incêndio em uma composição provocou a paralisação das linhas, gerando superlotação, longas filas, passageiros caminhando pelos trilhos e uma rotina de caos para trabalhadores, estudantes e idosos. Enquanto isso, milhares de pessoas aguardavam, sem qualquer previsão concreta, a normalização do serviço.

É evidente que a investigação técnica deverá apontar as causas do incidente e as responsabilidades pelo ocorrido. Mas há uma reflexão política que não pode ser ignorada.

O Governo do Estado apresentou a concessão das Linhas 11, 12 e 13 como símbolo da eficiência da iniciativa privada. Disse que haveria mais qualidade, mais tecnologia e melhor atendimento. Entretanto, antes mesmo que a população pudesse perceber qualquer benefício concreto, o que viu foi um sistema mergulhado em mais um dia de caos.

A pergunta que fica é inevitável: quem assume o prejuízo do trabalhador que perdeu o dia de serviço? Quem paga pela consulta médica perdida? Quem indeniza o estudante que perdeu a prova? Quem devolve as horas arrancadas da vida de milhares de pessoas presas em plataformas lotadas?

A resposta é sempre a mesma: ninguém.

Quando se fala em concessão, costuma-se destacar bilhões em investimentos, contratos sofisticados e promessas de eficiência. Mas quase nunca se fala sobre quem realmente sustenta esse sistema: o passageiro.

Essas linhas não nasceram prontas. Durante décadas, foram construídas, ampliadas e modernizadas com recursos públicos. Bilhões de reais investidos pelo povo paulista transformaram a infraestrutura ferroviária em um patrimônio moderno e estratégico. Agora, sua operação passa para uma empresa privada sob o argumento de que o mercado administrará melhor aquilo que foi financiado pela sociedade.

Essa lógica merece ser debatida.

O transporte público não pode ser tratado apenas como uma oportunidade de negócio. Ele é um direito social previsto na Constituição e um instrumento fundamental para reduzir desigualdades. Quando a prioridade passa a ser o equilíbrio financeiro do contrato, existe o risco de que a qualidade do serviço deixe de ocupar o primeiro lugar.

Os defensores da concessão afirmam que problemas operacionais podem ocorrer em qualquer sistema ferroviário, seja público ou privado. Isso é verdade. Nenhum sistema está livre de falhas. Mas também é verdade que, quando uma concessão é apresentada como solução para todos os problemas, ela naturalmente passa a ser cobrada pelos resultados prometidos.

Hoje, milhares de trabalhadores sentiram, mais uma vez, o peso de um sistema que falhou justamente quando mais precisavam dele.

Não se trata apenas de um trem parado.

É o salário perdido.

É o desconto no holerite.

É a criança esperando o pai chegar.

É o paciente que perde uma consulta.

É a diarista que não consegue completar a jornada.

É o estudante que perde uma avaliação.

Enquanto isso, contratos, planilhas e discursos seguem funcionando normalmente.

Quem parou foi o povo.

Mais do que discutir quem opera os trilhos, é preciso discutir qual deve ser a prioridade do transporte público paulista. O interesse coletivo ou a lógica do mercado?

Os passageiros não querem saber quem administra o trem. Querem respeito.

Querem informação.

Querem segurança.

Querem chegar ao trabalho e voltar para casa.

Porque transporte público não é mercadoria.

É um direito.

E quando esse direito falha, quem paga a conta continua sendo exatamente quem sempre pagou: o trabalhador paulista.

terça-feira, 21 de julho de 2026

O povo paga, o mercado lucra: a entrega das Linhas 11, 12 e 13 da CPTM


Enquanto milhões de trabalhadores acordam antes do amanhecer para enfrentar longas viagens até o trabalho, o Governo do Estado de São Paulo comemora a entrega de mais três linhas da CPTM à iniciativa privada. O discurso é conhecido: eficiência, modernização, investimentos e melhoria dos serviços. A propaganda é bonita. A realidade, porém, costuma ser bem diferente para quem está todos os dias na plataforma esperando um trem.

As Linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade não foram entregues abandonadas. Muito pelo contrário. Durante anos, bilhões de reais do dinheiro público foram investidos na compra de novos trens, modernização das estações, melhorias na via permanente e ampliação da capacidade do sistema. Foi a população paulista quem financiou essa transformação por meio dos impostos.

Agora que o patrimônio foi recuperado e valorizado, sua operação passa para a iniciativa privada.

A pergunta que o governo evita responder é simples: se a CPTM conseguiu construir um sistema moderno com recursos públicos, por que a operação precisa ser entregue ao mercado justamente agora?

Os defensores da concessão afirmam que a concorrência e a gestão privada trarão mais eficiência. Mas a experiência recente das Linhas 8 e 9 deixou um alerta que não pode ser ignorado. A população assistiu a uma sucessão de falhas, atrasos, panes e transtornos que afetaram milhares de passageiros. Cada interrupção significou trabalhadores chegando atrasados ao serviço, estudantes perdendo aulas e famílias esperando horas para voltar para casa.

Mesmo durante o processo de transição das Linhas 11, 12 e 13, usuários já relataram dificuldades provocadas por falhas operacionais e pela falta de informações claras. Para quem depende do transporte coletivo, pouco importa quem administra os trilhos; o que importa é conseguir embarcar, chegar ao destino e ser tratado com respeito.

O problema é que existe uma diferença fundamental entre a lógica do serviço público e a lógica do mercado.

O transporte público é um direito social. Para uma empresa privada, ele também precisa gerar lucro. É justamente aí que mora a preocupação de trabalhadores, especialistas e movimentos sociais: quando o lucro se torna prioridade, o interesse coletivo corre o risco de ficar em segundo plano.

Não se trata de demonizar a iniciativa privada. Trata-se de reconhecer que trem metropolitano não é um produto qualquer. É um serviço essencial que movimenta milhões de pessoas todos os dias e influencia diretamente a economia, a educação, a saúde e a qualidade de vida.

O governo afirma que haverá fiscalização rigorosa. A população espera que isso aconteça de fato. Porque contratos podem prometer muito no papel, mas quem julga seu sucesso é o passageiro que enfrenta a plataforma lotada às seis da manhã.

Não basta inaugurar placas, anunciar bilhões em investimentos ou divulgar campanhas publicitárias. O verdadeiro indicador de sucesso é simples: menos atrasos, mais segurança, informação transparente e respeito ao cidadão.

A população paulista já pagou pela construção desse patrimônio. Não pode aceitar pagar novamente com atrasos, superlotação e perda da qualidade do serviço.

O transporte sobre trilhos não pode ser tratado apenas como uma oportunidade de negócios. Ele deve continuar sendo entendido como um direito da população e uma responsabilidade do Estado.

Porque quando o lucro sobe aos trilhos, quem corre o risco de ficar parado na estação é sempre o trabalhador.