terça-feira, 24 de março de 2026

A vida além do trabalho: estamos perdendo o direito de viver?

 

Desde os primeiros anos de vida, o ser humano entra em uma rotina intensa, marcada por horários, obrigações e pouco tempo livre. O que começa na infância como uma necessidade de cuidado e educação, ao longo dos anos se transforma em uma lógica contínua de produtividade, muitas vezes à custa da convivência familiar e da qualidade de vida.
15 a 17 anos dedicados aos estudos (da infância ao ensino superior) 35 anos ou mais de trabalho contínuo Entre 70 mil e 90 mil horas trabalhadas ao longo da vida E ele não pode ser consumido quase totalmente pelo trabalho.

Ainda bebês, milhões de crianças passam até 10 horas por dia em creches. Na infância e adolescência, a rotina segue com 4 a 6 horas diárias de escola, podendo chegar a 9 horas no ensino integral. Já na juventude, muitos passam a conciliar estudo e trabalho, ampliando ainda mais a carga diária de responsabilidades.

Ao chegar à vida adulta, esse ciclo se intensifica.

Uma vida dedicada ao estudo e ao trabalho

Se analisarmos o tempo total investido ao longo da vida, os números chamam atenção:

Esses números mostram que uma parcela significativa da existência humana é dedicada a produzir, cumprir metas e garantir a sobrevivência. Mas existe uma pergunta inevitável: quanto tempo sobra para viver?

O tempo que não volta: família e convivência

Quando se considera uma rotina comum de trabalho no Brasil, o cenário se torna ainda mais preocupante.

Uma jornada diária pode incluir: 8 a 10 horas de trabalho; 1 a 3 horas de deslocamento; 6 a 8 horas de sono.

Na prática, restam apenas 2 a 4 horas livres por dia, muitas vezes consumidas pelo cansaço físico e mental.

Esse modelo impacta diretamente o convívio entre pais e filhos, as relações familiares, a saúde mental e o equilíbrio emocional. Não é raro que famílias passem a conviver de fato apenas aos finais de semana  e, mesmo assim, de forma limitada.

Escala 6x1: rotina ou desequilíbrio?

Um dos pontos mais debatidos atualmente é a chamada escala 6x1  seis dias de trabalho para apenas um de descanso.

Na prática, isso representa:

Cerca de 300 dias de trabalho por ano

Aproximadamente 48 dias de descanso anual

Esse modelo levanta questionamentos importantes. É possível manter qualidade de vida com apenas um dia de descanso? Existe espaço real para lazer, família e descanso? Até que ponto isso afeta a saúde física e mental dos trabalhadores?

Especialistas apontam que jornadas prolongadas e poucos períodos de descanso não aumentam necessariamente a produtividade e podem, na verdade, gerar o efeito contrário, com queda de desempenho e aumento do esgotamento.

Precisamos repensar o modelo

O debate sobre o tempo de trabalho não é apenas econômico. Ele é social, humano e urgente. Discutir alternativas como redução da jornada de trabalho, maior flexibilidade, modelos híbridos ou até a semana de quatro dias não é um luxo é uma necessidade diante de uma sociedade cada vez mais sobrecarregada.

Conclusão: viver não pode ser um detalhe

Ao longo da vida, o ser humano dedica décadas ao estudo e ao trabalho. No entanto, o tempo para viver plenamente  estar com a família, cuidar da saúde, descansar e aproveitar a vida  acaba sendo reduzido a pequenos intervalos.

A grande questão que fica é:

Estamos organizando a sociedade para viver melhor ou apenas para produzir mais?

Repensar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal não é apenas uma escolha individual  é um debate coletivo sobre o tipo de sociedade que queremos construir.

Porque, no final das contas, o tempo é o recurso mais valioso que existe.

Por Wilson Guimarães Jr.
Colunista do blog Política de Quintal

quarta-feira, 11 de março de 2026

Quando a política vira ódio, a democracia entra em risco

 

Da divergência democrática ao discurso de eliminação do adversário: o Brasil precisa decidir se quer debate ou guerra política.

Nos últimos anos o Brasil atravessou uma transformação preocupante na forma como parte da sociedade passou a enxergar a política. O que antes era disputa de ideias passou a ser tratado como uma guerra entre inimigos. E quando a política vira guerra, a democracia passa a correr perigo.

Escrevo estas linhas não apenas como observador da política, mas como alguém que vive esse ambiente há décadas. Sou filiado ao Partido dos Trabalhadores desde o ano 2000. Não por modismo, nem por conveniência eleitoral. Por convicção. Sempre enxerguei o partido como fruto das lutas do povo trabalhador e da defesa de direitos sociais.

Mas ser petista, para mim, nunca significou odiar quem pensa diferente. Democracia existe justamente para que ideias distintas disputem projetos de país.

Minha trajetória começou como assessor parlamentar de deputado estadual, função que exerci de 2006 a 2012, período em que aprendi, na prática, o funcionamento do poder público e o valor do diálogo com a população.

Posteriormente, assumi responsabilidades dentro da organização partidária, atuando como Secretário de Organização entre 2011 e 2013, contribuindo para a estruturação política e o fortalecimento da militância.

Também tive a honra de exercer o cargo de Secretário de Finanças e Planejamento do partido entre 2017 e 2025, período em que contribuí para a organização administrativa e financeira da estrutura partidária.

A partir de 2015, passei a exercer a função de Chefe de Gabinete de vereador, cargo que ocupo até hoje, trabalhando diariamente na interlocução entre o poder público e as demandas da população.

Para alguns, a política é apenas um jogo de poder.
Para mim, sempre foi serviço público, responsabilidade social e compromisso com as pessoas.

Mais do que cargos ou funções, o que define minha trajetória é a dedicação diária em buscar soluções para os problemas da população e contribuir para uma sociedade mais justa.

Quem chega ao gabinete traz apenas um problema e a esperança de encontrar alguém disposto a ajudar.

Essa é a política real. A que acontece longe da espuma das redes sociais.

Mas foi justamente nesse ambiente digital que começou a se espalhar um veneno perigoso: a ideia de que o adversário político não é alguém com uma visão diferente de país, mas um inimigo que precisa ser eliminado.

Durante o período mais intenso da polarização política, tornou-se comum ouvir frases como “tem que acabar com os petistas”, “tem que varrer a esquerda do mapa”. Para alguns, isso parecia apenas retórica inflamada de campanha. Mas palavras têm peso. Palavras constroem ambientes. E ambientes de ódio produzem consequências.

O mais inquietante é quando esse discurso sai das redes sociais e entra dentro das nossas próprias casas. Quando a política passa a dividir famílias, amizades e comunidades.

Tenho familiares que apoiaram e ainda apoiam Jair Bolsonaro. Isso, por si só, nunca foi problema. Famílias sempre tiveram divergências políticas. O problema começa quando a divergência se transforma em desumanização.

Foi então que uma pergunta passou a me perseguir.

Se a democracia tivesse sido rompida no Brasil — se um golpe tivesse realmente acontecido — qual teria sido o destino de milhões de brasileiros identificados com ideias de esquerda?

Professores, Sindicalistas, Militantes, Trabalhadores, Estudantes, Pessoas comuns.

E a pergunta mais dura de todas: quando essas vítimas fossem nossos próprios parentes, nossos amigos, nossos vizinhos… o que fariam aqueles que pensam diferente?

Chorariam seus mortos?

Ou aplaudiriam o algoz?

A história mostra que as grandes tragédias políticas começam exatamente quando uma sociedade aceita a desumanização do outro. Quando um grupo passa a acreditar que o outro não merece existir.

É assim que nascem os regimes autoritários.

A democracia não exige que todos pensem igual. Exige apenas que reconheçamos o direito do outro existir.

O Brasil não precisa de messias políticos nem de salvadores da pátria. Precisa de maturidade democrática.

Podemos discordar. Podemos votar em candidatos diferentes. Podemos defender projetos distintos de país.

O que não podemos aceitar é transformar brasileiros em inimigos dentro da própria nação.

Porque quando a política vira ódio, ninguém vence.

E quando a democracia morre, todos perdem.


Por Wilson Guimarães Jr.
Colunista do blog Política de Quintal