De simples ligações indesejadas a golpes sofisticados: o telefone, que já foi símbolo de aproximação, hoje também virou ferramenta de medo, fraude e manipulação
Houve um tempo em que o telefone tocava e a primeira reação era atender.
Podia ser um parente, um amigo, uma notícia, uma oportunidade de trabalho ou simplesmente alguém querendo conversar.
Hoje, para muita gente, o telefone toca e a primeira pergunta é outra:
“Será que é golpe?”
E não é paranoia.
É resultado de anos de ligações abusivas, telemarketing insistente, robôs que ligam e desligam, falsas centrais bancárias, cobranças de serviços que a pessoa nunca contratou, supostas compras realizadas em bancos onde o cidadão nem possui conta e até criminosos utilizando gravações de voz para simular familiares em situações de emergência.
A tecnologia avançou. Mas, em muitos casos, avançou também a capacidade de enganar.
O telefone virou território de desconfiança
Quem nunca recebeu uma ligação dizendo:
“Estamos entrando em contato para confirmar uma compra de R$ 4.850 em seu cartão.”
O problema é que a pessoa sequer possui cartão naquele banco.
Ou então:
“Estamos falando do seu banco. Identificamos uma movimentação suspeita.”
A partir daí começa o teatro.
O falso atendente sabe o nome da vítima, às vezes conhece os quatro últimos números do cartão, sabe o banco utilizado ou apresenta informações suficientes para parecer legítimo.
Então vem a pergunta aparentemente inocente:
“Para confirmar que é o senhor mesmo, poderia informar alguns dados?”
É aí que mora o perigo.
O golpe da falsa central telefônica já foi alvo de investigações e operações policiais. Em 2025, a Polícia Federal desarticulou grupos que utilizavam falsas centrais para obter dados bancários das vítimas. Em maio de 2026, outra operação da PF investigou fraudes que movimentaram mais de R$ 2 milhões em contas de aproximadamente 30 correntistas da Caixa.
Não estamos falando mais de pequenos estelionatários improvisando uma história.
Estamos falando de organizações criminosas especializadas.
E quando o banco onde você nem tem conta liga?
Essa é uma das estratégias que mais provocam confusão.
O telefone toca:
“Aqui é do Banco X. Identificamos uma compra realizada no seu cartão...”
Só existe um problema:
você não tem conta naquele banco.
A tendência de muita gente é desligar imediatamente. Mas outros acabam entrando na conversa, tentando entender o que está acontecendo. E é justamente nesse momento que o criminoso começa a conduzir a vítima.
O objetivo não é necessariamente descobrir se você é cliente daquele banco.
Pode ser descobrir quais bancos você utiliza, quais cartões possui, qual é seu CPF, seu telefone, sua data de nascimento ou outros dados que poderão ser utilizados posteriormente.
A ligação pode ser apenas uma etapa da fraude.
O golpe também pode começar com uma ligação muda
Existe outro fenômeno que muita gente conhece: o telefone toca, você atende e ninguém fala.
Alguns segundos depois, a ligação cai.
Parece apenas irritante.
Mas a própria Anatel identifica as chamadas abusivas em diferentes categorias, incluindo as chamadas automatizadas e as chamadas utilizadas para identificar números que têm maior probabilidade de atendimento.
Em outras palavras: se você atende, seu número pode passar a ser considerado um número “ativo” e mais interessante para determinados sistemas de telemarketing ou fraudadores.
É por isso que aquela sequência de ligações mudas não deve ser tratada simplesmente como uma brincadeira.
O “sequestro” que acontece dentro do telefone
Talvez uma das modalidades mais cruéis seja o falso sequestro.
O telefone toca.
Do outro lado, uma voz desesperada:
“Mãe, me ajuda!”
Depois, outra pessoa assume a ligação:
“Estamos com seu filho.”
A vítima entra em pânico.
Em versões mais antigas do golpe, o criminoso dependia apenas da imaginação e de informações obtidas durante a própria conversa.
Agora, a tecnologia acrescentou uma nova arma: a clonagem ou imitação de voz.
A Anatel alertou em 2026 para golpes que utilizam inteligência artificial, incluindo áudios, imagens e vídeos manipulados capazes de imitar, com alto grau de realismo, pessoas conhecidas.
Isso muda completamente o jogo.
A voz, que durante décadas foi uma espécie de identidade, também pode ser falsificada.
Até o INSS virou argumento para golpe
Outro exemplo é a chamada falsa relacionada à prova de vida.
O criminoso liga dizendo ser do INSS:
“Seu benefício poderá ser suspenso.”
“Precisamos confirmar seus dados.”
“É necessário fazer a prova de vida.”
“Informe seus documentos.”
O problema é que o próprio INSS é claro: não liga para os cidadãos para tratar de prova de vida e pedir dados pessoais ou pagamentos.
Em 2026, o instituto reforçou que a prova de vida é realizada, em regra, por cruzamento automático de bases governamentais. Quem precisa verificar sua situação deve utilizar o Meu INSS ou a Central 135.
Portanto, se alguém ligar dizendo ser do INSS e pedir dados, senha, pagamento ou transferência para “regularizar” a prova de vida:
DESLIGUE.
O criminoso falsifica até o número que aparece na tela
Talvez esse seja um dos aspectos mais preocupantes.
Muita gente pensa:
“Se o número aparece como sendo de determinada cidade ou empresa, deve ser verdadeiro.”
Não necessariamente.
Existe uma técnica conhecida como spoofing, pela qual o número de origem apresentado ao destinatário pode ser adulterado.
Ou seja, o criminoso pode tentar fazer a chamada parecer que veio de um número legítimo.
Isso explica por que algumas ligações parecem tão convincentes.
A Anatel vem adotando medidas para combater esse problema, aumentando a rastreabilidade das chamadas e determinando mecanismos para bloquear tráfego irregular e adulterações.
Desde 2025, também avançou a implementação de mecanismos de autenticação e identificação das chamadas, justamente para permitir maior segurança sobre quem está realmente originando a ligação.
Mas e as operadoras? E o governo?
É importante reconhecer que existem medidas sendo tomadas.
A Anatel vem enfrentando o problema há anos.
Entre as iniciativas estão:
o Não Me Perturbe;
o prefixo 0303 para telemarketing ativo;
bloqueios de empresas e usuários que abusam da rede;
combate às robocalls;
monitoramento de grandes chamadores;
autenticação das chamadas;
mecanismos de rastreabilidade;
combate ao spoofing;
fiscalização e aplicação de multas.
Segundo dados divulgados pela própria Anatel, as medidas adotadas já impediram mais de 248 bilhões de chamadas indesejadas, além de mais de 1.200 bloqueios de empresas e quase R$ 40 milhões em multas.
São números impressionantes.
Mas existe uma conclusão igualmente importante:
se bilhões de chamadas precisaram ser bloqueadas, é porque o problema atingiu uma escala gigantesca.
O 0303 ajuda, mas não resolve o problema
O prefixo 0303 foi criado para permitir que o consumidor reconheça chamadas de telemarketing ativo.
Mas é fundamental entender uma coisa:
0303 não significa “ligação segura”.
Significa que a chamada deveria estar identificada como telemarketing.
Golpistas podem utilizar números falsificados ou outras estratégias para tentar escapar dos mecanismos de identificação.
Por isso, uma ligação que parece oficial não deve ser automaticamente considerada verdadeira.
O “Não Me Perturbe” é uma ferramenta importante
Quem está cansado de receber ofertas de serviços de telecomunicações e determinadas ofertas de crédito consignado pode utilizar gratuitamente o Não Me Perturbe.
Desde 2025, a Anatel determinou a adoção da plataforma como referência setorial para consumidores que optam por não receber chamadas publicitárias de telecomunicações.
Mas há uma limitação importante:
o bloqueio não impede determinadas ligações, como contatos relacionados a prevenção a fraudes, cobranças e algumas confirmações.
Ou seja, o cadastro ajuda a combater telemarketing, mas não transforma o telefone em uma fortaleza contra golpes.
A tecnologia está correndo atrás do crime
Esse é o ponto central.
Os criminosos também utilizam tecnologia.
Eles usam bancos de dados, automação, robôs, engenharia social, falsificação de números, aplicativos de mensagem e, cada vez mais, inteligência artificial.
Enquanto isso, governos e empresas precisam criar mecanismos capazes de identificar rapidamente quem está por trás de uma chamada.
A Anatel já está avançando nessa direção.
A chamada autenticação e identificação de chamadas busca justamente aumentar a confiança do consumidor, permitindo identificar de maneira mais clara quem está ligando e verificar se o número apresentado corresponde realmente à origem da chamada.
É uma mudança importante.
Mas não pode ser a única.
O cidadão não pode ser transformado em seu próprio sistema de segurança
Existe algo profundamente errado quando a pessoa precisa passar o dia desconfiando do próprio telefone.
O trabalhador recebe uma ligação e não sabe se deve atender.
O aposentado recebe uma chamada e teme perder seu benefício.
O consumidor recebe uma mensagem e teme que sua conta tenha sido invadida.
A mãe ou o pai ouve a voz de um filho e precisa perguntar:
“Você está realmente falando comigo?”
Isso revela uma crise de confiança.
A tecnologia deveria facilitar a vida.
Não deveria transformar cada ligação em uma possível ameaça.
A regra de ouro: quem liga é que precisa provar quem é
Talvez seja hora de inverter completamente a lógica.
Se alguém liga dizendo ser banco, não forneça informações para provar que você é você.
Desligue.
Abra o aplicativo oficial do banco.
Ligue para o número oficial que aparece no cartão ou no aplicativo.
Se for o INSS, consulte o Meu INSS ou ligue para o 135.
Se for uma empresa, procure o canal oficial.
Nunca utilize o número fornecido pelo próprio desconhecido que está tentando convencê-lo.
E principalmente:
nenhum banco sério precisa que você informe sua senha, código de autenticação ou faça uma transferência para “cancelar” uma operação.
E talvez seja por isso que ninguém mais atende telefone
Chegamos a uma situação curiosa.
O telefone foi criado para aproximar as pessoas.
Hoje, ele frequentemente as afasta.
O cidadão olha para uma chamada de número desconhecido e pensa:
“Não vou atender.”
Não porque não queira falar.
Mas porque não sabe quem está do outro lado.
E essa desconfiança não nasceu do nada.
Foi construída por anos de ligações abusivas, telemarketing agressivo, vazamento e circulação de dados, golpes cada vez mais sofisticados e uma indústria criminosa que descobriu no telefone uma ferramenta barata e poderosa para alcançar milhões de brasileiros.
A tecnologia avançou.
Agora precisamos garantir que a segurança avance na mesma velocidade.
Porque comunicação deveria aproximar.
Informação deveria proteger.
Tecnologia deveria libertar.
E telefone deveria voltar a ser simplesmente aquilo que um dia foi:
um instrumento para aproximar pessoas — e não uma porta aberta para o golpe.
POLÍTICA DE QUINTAL
No fim das contas, a pergunta não é apenas:
“Por que recebo tantas ligações?”
A pergunta é muito maior:
Quem tem nossos dados? Quem pode utilizá-los? Quem lucra com eles? E quem protege o cidadão quando essa informação cai nas mãos erradas?
A defesa do consumidor também é defesa da cidadania.
E, numa sociedade cada vez mais digital, privacidade, segurança e informação confiável são direitos — não privilégios.
Fontes oficiais utilizadas na apuração: a Anatel informa que já bloqueou mais de 1.200 empresas e que mais de 248 bilhões de chamadas indesejadas deixaram de ser realizadas; também mantém medidas contra robocalls, spoofing e grandes chamadores. (Serviços e Informações do Brasil)
A autenticação de chamadas começou a ganhar implementação efetiva a partir de 2025, permitindo verificar melhor a origem da chamada e combater a falsificação de números. (Serviços e Informações do Brasil)
O Não Me Perturbe foi ampliado pela Anatel em 2025 como plataforma setorial para consumidores que não desejam chamadas publicitárias, embora não bloqueie contatos legítimos de prevenção a fraudes, cobranças e algumas outras situações. (Serviços e Informações do Brasil)
Sobre o INSS, a orientação oficial de 2026 é especialmente importante: o INSS não liga nem vai à residência para tratar de prova de vida e pedir dados pessoais ou pagamentos. A consulta deve ser feita pelo Meu INSS ou pelo 135. (Serviços e Informações do Brasil)
A Polícia Federal também vem realizando operações recentes contra organizações especializadas em fraudes bancárias e falsas centrais telefônicas, inclusive em 2026. (Serviços e Informações do Brasil)
