quinta-feira, 16 de abril de 2026

O Conservadorismo de Dois Lados: Quando o Rico e o Pobre Abraçam a Ordem (e a Esquerda Estranha)


Uma análise sobre como a defesa do status quo se manifesta tanto na elite quanto na periferia — e por que a esquerda precisa encarar esse espelho

 

Nos últimos anos, tem se tornado cada vez mais comum no debate progressista uma certa perplexidade: como é possível que trabalhadores, moradores de periferia e pessoas em situação de vulnerabilidade econômica defendam pautas consideradas conservadoras? Ao mesmo tempo, a esquerda já aprendeu a reconhecer o conservadorismo da elite — aquele que defende cortes de impostos para os ricos, moralidade familiar seletiva e liberdade econômica como dogma. Mas o conservadorismo do pobre ainda provoca estranhamento.

Este artigo propõe um exercício incômodo, sob a ótica da esquerda: entender que o conservadorismo não é monopólio de classe, mas se reveste de roupagens distintas — e igualmente funcionais à manutenção da ordem — quando vem de cima ou de baixo.

O conservadorismo do rico: a defesa do privilégio

Na visão da esquerda, o conservadorismo das classes abastadas é mais fácil de decifrar. Ele é, antes de tudo, um instrumento de perpetuação de poder. O rico conservador quer:

  • Estado mínimo para o bolso, mas Estado máximo para o controle social (segurança pública repressiva, criminalização da pobreza).
  • Moral familiar tradicional como discurso, mas não necessariamente como prática — vide divórcios, abortos clandestinos e hipocrisias de classe média alta.
  • Mérito como justificativa para a própria posição, ignorando heranças, contatos e oportunidades estruturais.

Esse conservadorismo é confortável: ele nunca pede que o rico abra mão de nada. Pelo contrário, sacraliza a propriedade privada e naturaliza a desigualdade como fruto do esforço individual.

O conservadorismo do pobre: a ilusão da ordem

O que a esquerda tem mais dificuldade de compreender — e, por vezes, de acolher — é o conservadorismo vindo de quem mais sofre com a desordem do capitalismo. Trata-se de um fenômeno complexo, que mistura:

  • Medo real da violência: em periferias abandonadas pelo Estado, a defesa de pautas como “mais polícia” ou “pena dura” nasce da ausência de alternativas. Não é adesão ao fascismo, é desespero.
  • Valores religiosos como rede de apoio: igrejas e comunidades de fé frequentemente ocupam espaços deixados vazios pelo poder público. O conservadorismo moral, nesse contexto, vem atrelado à única estrutura de acolhimento disponível.
  • Ascensão social pelo empreendedorismo: a crença de que “basta trabalhar duro” é uma ideologia poderosa para quem não tem acesso à educação crítica ou a sindicatos fortes.

A esquerda tradicional, ao ridicularizar essas crenças como “falsa consciência”, muitas vezes empurra essas pessoas ainda mais para a direita. O conservadorismo do pobre não é, em sua essência, uma defesa da elite — é uma tentativa desesperada de criar previsibilidade num mundo caótico.

As contradições que a esquerda precisa encarar

Se a esquerda quer construir hegemonia, precisa superar dois erros simétricos:

  1. Tratar todo conservador como inimigo de classe — ignorando que, na base, muitos valores conservadores são, na verdade, demandas por segurança, estabilidade e pertencimento.
  2. Romantizar a pobreza como progressista por natureza — a dura realidade é que comunidades vulneráveis também reproduzem machismo, LGBTfobia e racismo, muitas vezes de forma mais aberta do que a elite hipócrita.

A diferença central, na análise de esquerda, é que o conservadorismo do rico é estratégico e consciente: ele sabe que defende seus privilégios. Já o conservadorismo do pobre é reativo e defensivo: uma resposta à precariedade, não um projeto de poder.

E agora?

Construir pontes não significa abandonar a crítica. A esquerda pode — e deve — combater o conservadorismo onde ele se manifesta, mas precisa fazê-lo com lentes de classe. Isso significa:

  • Oferecer segurança pública democrática, não apenas criticar a polícia.
  • Dialogar com religiosidades sem se render ao fundamentalismo.
  • Propor organização coletiva contra o empreendedorismo solitário.

E, acima de tudo, entender que chamar o pobre de 'atrasado' — ou rotulá-lo de 'pobre de direita' como sinônimo de atraso — só fortalece a direita. Porque substitui a escuta pelo desprezo de classe, confunde efeito (valores conservadores) com causa (precariedade e ausência do Estado) e, ao humilhar em vez de disputar ideias, entrega de bandeja para o conservadorismo estratégico da elite exatamente quem poderia ser aliado na transformação.

            O conservadorismo do rico merece confronto. O do pobre, escuta — e propostas melhores. Só assim a esquerda deixará de tratar a própria base como estranha e começará, de fato, a transformar a realidade.


terça-feira, 24 de março de 2026

A vida além do trabalho: estamos perdendo o direito de viver?

 

Desde os primeiros anos de vida, o ser humano entra em uma rotina intensa, marcada por horários, obrigações e pouco tempo livre. O que começa na infância como uma necessidade de cuidado e educação, ao longo dos anos se transforma em uma lógica contínua de produtividade, muitas vezes à custa da convivência familiar e da qualidade de vida.
15 a 17 anos dedicados aos estudos (da infância ao ensino superior) 35 anos ou mais de trabalho contínuo Entre 70 mil e 90 mil horas trabalhadas ao longo da vida E ele não pode ser consumido quase totalmente pelo trabalho.

Ainda bebês, milhões de crianças passam até 10 horas por dia em creches. Na infância e adolescência, a rotina segue com 4 a 6 horas diárias de escola, podendo chegar a 9 horas no ensino integral. Já na juventude, muitos passam a conciliar estudo e trabalho, ampliando ainda mais a carga diária de responsabilidades.

Ao chegar à vida adulta, esse ciclo se intensifica.

Uma vida dedicada ao estudo e ao trabalho

Se analisarmos o tempo total investido ao longo da vida, os números chamam atenção:

Esses números mostram que uma parcela significativa da existência humana é dedicada a produzir, cumprir metas e garantir a sobrevivência. Mas existe uma pergunta inevitável: quanto tempo sobra para viver?

O tempo que não volta: família e convivência

Quando se considera uma rotina comum de trabalho no Brasil, o cenário se torna ainda mais preocupante.

Uma jornada diária pode incluir: 8 a 10 horas de trabalho; 1 a 3 horas de deslocamento; 6 a 8 horas de sono.

Na prática, restam apenas 2 a 4 horas livres por dia, muitas vezes consumidas pelo cansaço físico e mental.

Esse modelo impacta diretamente o convívio entre pais e filhos, as relações familiares, a saúde mental e o equilíbrio emocional. Não é raro que famílias passem a conviver de fato apenas aos finais de semana  e, mesmo assim, de forma limitada.

Escala 6x1: rotina ou desequilíbrio?

Um dos pontos mais debatidos atualmente é a chamada escala 6x1  seis dias de trabalho para apenas um de descanso.

Na prática, isso representa:

Cerca de 300 dias de trabalho por ano

Aproximadamente 48 dias de descanso anual

Esse modelo levanta questionamentos importantes. É possível manter qualidade de vida com apenas um dia de descanso? Existe espaço real para lazer, família e descanso? Até que ponto isso afeta a saúde física e mental dos trabalhadores?

Especialistas apontam que jornadas prolongadas e poucos períodos de descanso não aumentam necessariamente a produtividade e podem, na verdade, gerar o efeito contrário, com queda de desempenho e aumento do esgotamento.

Precisamos repensar o modelo

O debate sobre o tempo de trabalho não é apenas econômico. Ele é social, humano e urgente. Discutir alternativas como redução da jornada de trabalho, maior flexibilidade, modelos híbridos ou até a semana de quatro dias não é um luxo é uma necessidade diante de uma sociedade cada vez mais sobrecarregada.

Conclusão: viver não pode ser um detalhe

Ao longo da vida, o ser humano dedica décadas ao estudo e ao trabalho. No entanto, o tempo para viver plenamente  estar com a família, cuidar da saúde, descansar e aproveitar a vida  acaba sendo reduzido a pequenos intervalos.

A grande questão que fica é:

Estamos organizando a sociedade para viver melhor ou apenas para produzir mais?

Repensar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal não é apenas uma escolha individual  é um debate coletivo sobre o tipo de sociedade que queremos construir.

Porque, no final das contas, o tempo é o recurso mais valioso que existe.

Por Wilson Guimarães Jr.
Colunista do blog Política de Quintal

quarta-feira, 11 de março de 2026

Quando a política vira ódio, a democracia entra em risco

 

Da divergência democrática ao discurso de eliminação do adversário: o Brasil precisa decidir se quer debate ou guerra política.

Nos últimos anos o Brasil atravessou uma transformação preocupante na forma como parte da sociedade passou a enxergar a política. O que antes era disputa de ideias passou a ser tratado como uma guerra entre inimigos. E quando a política vira guerra, a democracia passa a correr perigo.

Escrevo estas linhas não apenas como observador da política, mas como alguém que vive esse ambiente há décadas. Sou filiado ao Partido dos Trabalhadores desde o ano 2000. Não por modismo, nem por conveniência eleitoral. Por convicção. Sempre enxerguei o partido como fruto das lutas do povo trabalhador e da defesa de direitos sociais.

Mas ser petista, para mim, nunca significou odiar quem pensa diferente. Democracia existe justamente para que ideias distintas disputem projetos de país.

Minha trajetória começou como assessor parlamentar de deputado estadual, função que exerci de 2006 a 2012, período em que aprendi, na prática, o funcionamento do poder público e o valor do diálogo com a população.

Posteriormente, assumi responsabilidades dentro da organização partidária, atuando como Secretário de Organização entre 2011 e 2013, contribuindo para a estruturação política e o fortalecimento da militância.

Também tive a honra de exercer o cargo de Secretário de Finanças e Planejamento do partido entre 2017 e 2025, período em que contribuí para a organização administrativa e financeira da estrutura partidária.

A partir de 2015, passei a exercer a função de Chefe de Gabinete de vereador, cargo que ocupo até hoje, trabalhando diariamente na interlocução entre o poder público e as demandas da população.

Para alguns, a política é apenas um jogo de poder.
Para mim, sempre foi serviço público, responsabilidade social e compromisso com as pessoas.

Mais do que cargos ou funções, o que define minha trajetória é a dedicação diária em buscar soluções para os problemas da população e contribuir para uma sociedade mais justa.

Quem chega ao gabinete traz apenas um problema e a esperança de encontrar alguém disposto a ajudar.

Essa é a política real. A que acontece longe da espuma das redes sociais.

Mas foi justamente nesse ambiente digital que começou a se espalhar um veneno perigoso: a ideia de que o adversário político não é alguém com uma visão diferente de país, mas um inimigo que precisa ser eliminado.

Durante o período mais intenso da polarização política, tornou-se comum ouvir frases como “tem que acabar com os petistas”, “tem que varrer a esquerda do mapa”. Para alguns, isso parecia apenas retórica inflamada de campanha. Mas palavras têm peso. Palavras constroem ambientes. E ambientes de ódio produzem consequências.

O mais inquietante é quando esse discurso sai das redes sociais e entra dentro das nossas próprias casas. Quando a política passa a dividir famílias, amizades e comunidades.

Tenho familiares que apoiaram e ainda apoiam Jair Bolsonaro. Isso, por si só, nunca foi problema. Famílias sempre tiveram divergências políticas. O problema começa quando a divergência se transforma em desumanização.

Foi então que uma pergunta passou a me perseguir.

Se a democracia tivesse sido rompida no Brasil — se um golpe tivesse realmente acontecido — qual teria sido o destino de milhões de brasileiros identificados com ideias de esquerda?

Professores, Sindicalistas, Militantes, Trabalhadores, Estudantes, Pessoas comuns.

E a pergunta mais dura de todas: quando essas vítimas fossem nossos próprios parentes, nossos amigos, nossos vizinhos… o que fariam aqueles que pensam diferente?

Chorariam seus mortos?

Ou aplaudiriam o algoz?

A história mostra que as grandes tragédias políticas começam exatamente quando uma sociedade aceita a desumanização do outro. Quando um grupo passa a acreditar que o outro não merece existir.

É assim que nascem os regimes autoritários.

A democracia não exige que todos pensem igual. Exige apenas que reconheçamos o direito do outro existir.

O Brasil não precisa de messias políticos nem de salvadores da pátria. Precisa de maturidade democrática.

Podemos discordar. Podemos votar em candidatos diferentes. Podemos defender projetos distintos de país.

O que não podemos aceitar é transformar brasileiros em inimigos dentro da própria nação.

Porque quando a política vira ódio, ninguém vence.

E quando a democracia morre, todos perdem.


Por Wilson Guimarães Jr.
Colunista do blog Política de Quintal

sábado, 28 de fevereiro de 2026

A Comercialização da Morte: Cartel, Abusos e o Sofrimento das Famílias nos Cemitérios Privatizados de São Paulo

 A promessa era de modernização, eficiência e respeito. Desde março de 2023, quando a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) entregou à iniciativa privada a administração de 22 cemitérios municipais de São Paulo, o que se viu foi um cenário de denúncias, lucro abusivo e dor aprofundada. Longe da concorrência saudável prometida na época, o que se formou foi um cartel que transformou o luto em mercadoria, deixando um rastro de famílias endividadas, trabalhadores excluídos e restos mortais desaparecidos.

 

Era para ser um negócio como outro qualquer. Na coletiva de apresentação das concessionárias — Consolare, Cortel, Maya e Velar SP — em março de 2023, o prefeito Ricardo Nunes afirmou que a concorrência geraria "bom serviço" e "bom atendimento". As empresas, por sua vez, prometeram um festival de superfluidades para amenizar a dor das famílias: wi-fi gratuito, limusine para o cortejo, música ao vivo, projeção de imagens e chuva de pétalas.

 

Um ano e meio depois, os hologramas e as limusines não saíram do papel. Em seu lugar, instalou-se o que especialistas e parlamentares classificam como um verdadeiro "cartel". Longe de competirem entre si, as quatro empresas passaram a ser denunciadas em bloco por práticas comerciais predatórias, operando em um mercado cativo onde a população não pode escolher não comprar.

 

O Sindicato dos Servidores Municipais (Sindsep) não tem dúvidas: "Essas quatro empresas montaram um cartel em São Paulo e eles acabam extorquindo a população. A privatização de São Paulo é um desastre".

 

A Farra dos Preços e a Taxa da "Mensalidade da Morte"

 

O impacto mais imediato e brutal da privatização foi sentido no bolso dos paulistanos. De acordo com levantamento do Sindsep, antes da concessão, o pacote de serviços mais barato, o "Popular", custava R$ 428,04. Após a privatização, esse mesmo serviço passou a custar impressionantes R$ 1.494,14. A alta acumulada foi tão absurda que chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Em novembro de 2024, o ministro Flávio Dino concedeu uma liminar determinando que os preços voltassem a ser praticados com base nos valores de 2022, corrigidos apenas pela inflação. Na decisão, Dino classificou as práticas como uma "exploração comercial de índole aparentemente abusiva" e afirmou que "a morte de um brasileiro não pode estar acompanhada de exploração comercial". O ministro ironizou a postura de autoridades municipais que tratam os cemitérios como "negócios como quaisquer outros", lembrando que o sepultamento ocorre em circunstâncias de extrema desigualdade e urgência, inviabilizando qualquer negociação justa.

 

Mas a criatividade para arrancar dinheiro das famílias não parou nos enterros. A concessionária Cortel SP, responsável por cemitérios como o do Araçá, na Zona Oeste, passou a enviar boletos cobrando uma taxa anual de "conservação" de jazigos a partir de meados de 2024. Na notificação, a empresa ameaça as famílias: quem não pagar corre o risco de ter o túmulo considerado "abandonado" e retomado pela concessionária. A prática foi considerada ilegal pela própria Prefeitura, que afirmou que a taxa não é obrigatória, mas o dano psicológico já estava feito. Dados recentes indicam que ao menos 566 famílias já perderam o direito sobre suas sepulturas e outras 17 mil correm esse risco.

 

"Vão Enterrar Meu Filho Como Indigente?" — O Sofrimento das Famílias

 

Por trás dos números e das autuações, há histórias de desespero. A privatização não apenas encareceu a morte, como a burocratizou e a tornou desumana, especialmente para os mais pobres.

 

Um caso ocorrido em dezembro de 2024 chocou a opinião pública. Ao visitar o túmulo de uma filha, um pai simplesmente não encontrou os restos mortais. A concessionária Maya havia realizado uma exumação compulsória, sem avisar a família. "O pai nem sabia que isso tinha acontecido. Vai passar o Natal e o Ano-Novo sem saber onde está a filha", denunciou uma vereadora da oposição.

 

Há também o caso de um recém-nascido, cujo pai, enlutado, procurou a mesma empresa e ouviu que o sepultamento custaria R$ 12 mil em outubro de 2024. O valor mais alto da tabela oficial é de R$ 9.989,71 para traslado internacional, enquanto a cremação infantil custa R$ 2.264,33. A empresa alegou que "ofereceu" a venda de um jazigo, um serviço mais caro, aproveitando-se da fragilidade do momento.

 

A pressão comercial é a tônica. Em depoimento à imprensa em agosto de 2024, uma mulher que perdeu o irmão relatou que, ao buscar a agência da Consolare, ouviu do vendedor que, se não pagasse por um caixão, ele seria enterrado como indigente. "Na hora que a gente está lá, todo mundo em desespero e chorando, não tem opção. A gente é obrigado, vai deixar um irmão da gente ser enterrado como indigente? Não vai deixar", desabafou.

 

Relatos de funcionários indicam que os vendedores são treinados para "empurrar" os produtos mais caros. Nos cemitérios, os caixões baratos ficam escondidos atrás de portas, enquanto os de luxo ocupam a vitrine.

 

O Direito dos Pobres é Burocracia

 

A população de baixa renda, que por lei tem direito à gratuidade, enfrenta um verdadeiro labirinto. Apesar de estarem no CadÚnico, muitas famílias têm sido surpreendidas com boletos. A justificativa da SP Regula (agência reguladora municipal) é a falta de atualização cadastral. No entanto, dados da UFMG mostram que São Paulo é a 26ª capital com pior taxa de atualização do Cadastro Único, o que significa que mais de 627 mil pessoas podem ter seus direitos negados não por falta de necessidade, mas por falha da máquina pública.

 

Para uma vereadora da oposição, a abordagem é criminosa. Em um dos casos que chegou ao seu gabinete em setembro de 2024, uma família enlutada foi informada que precisaria pagar R$ 1.500 para dar banho, maquiar e vestir uma criança. Caso contrário, o corpo seguiria para o caixão "da forma que sai da necropsia".

 

Os Trabalhadores Também São Vítimas

 

O "cartel" não afeta apenas os consumidores. Antes da privatização, jardineiros, zeladores e empreiteiros autônomos trabalhavam nos cemitérios prestando serviços de manutenção para as famílias. Agora, eles são tratados como intrusos.

 

Um jardineiro do Cemitério de Vila Formosa (o maior da América Latina) denunciou em julho de 2024 que as empresas estão boicotando o trabalho autônomo para forçar a venda de seus próprios serviços. "Agora, dizem que só pode fazer 13 enterros por dia. Antes, fazíamos mais de 30. Eles retardam os sepultamentos para obrigar a família a contratar a tanatopraxia", afirma.

 

A tanatopraxia (técnica de conservação do corpo) que antes custava R$ 750, agora pode chegar a R$ 6 mil.

 

A Associação dos Trabalhadores Autônomos (AtacSP) reclama da falta de clareza no credenciamento e das restrições de acesso. Segundo eles, a SP Regula não tem pessoal suficiente e os deixa "no escuro" sobre como podem trabalhar.

 

Ação no STF e a Reação na Câmara

 

A situação é tão grave que promoveu algo raro na política: a união de vereadores de esquerda e de direita. Em abril de 2025, na Câmara Municipal, governistas e oposição fecharam questão em torno da **caducidade dos contratos**.

 

O presidente da Comissão de Política Urbana foi enfático: "Para mim, isso é falcatrua. As empresas estão recebendo e nem sequer realizaram qualquer benfeitoria. A caducidade dos contratos é necessária, já deveria ter sido feita".

 

No STF, a ação do PCdoB, que contesta a constitucionalidade da privatização e as práticas abusivas, segue tramitando. O ministro Flávio Dino já impôs limites às cobranças em novembro de 2024, mas um pedido de vista do ministro Luiz Fux, em maio de 2025, adiou a decisão final sobre o futuro do modelo. Em seu voto, Dino recorreu à tragédia grega "Antígona" para lembrar a ancestralidade do direito ao sepultamento digno e criticou a "mercantilização do sofrimento humano".

 

O que diz a Prefeitura?

 

Em notas oficiais, a Prefeitura de São Paulo defende o modelo, afirmando que a concessão "deu início a um importante processo de qualificação e eficiência do setor". O executivo municipal destaca que foram incluídos descontos de 25% para a população de baixa renda e que a fiscalização segue aplicando multas — embora, dos 149 autos de infração lavrados até março de 2025, apenas 22 tenham sido convertidos em multas de fato.

 

Sobre a decisão do STF, a Prefeitura classificou a medida como um "retrocesso" que elimina benefícios à população pobre, contestando os valores divulgados pela imprensa.

 

Enquanto o judiciário e o legislativo discutem, as famílias paulistanas continuam a enterrar seus mortos sob a sombra de um cartel que transformou a despedida final no negócio mais lucrativo e desumano da cidade.

 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O Triunfo do Trivial: Como a Sociedade Moderna Aprendeu a Banalizar a Vida

 O Triunfo do Trivial: Como a Sociedade Moderna Aprendeu a Banalizar a Vida

Por que, na era do excesso de informação, nos sentimos mais vazios e superficiais do que nunca? Especialistas apontam para um "sistema de trivialidade" que transforma relações, valores e a própria existência em mercadorias descartáveis.

Em um mundo hiperconectado, onde a tecnologia promete aproximar pessoas e democratizar o conhecimento, um fenômeno inverso e preocupante ganha força: a banalização da vida. O que antes era profundo, complexo e digno de reflexão tem sido sistematicamente substituído pelo superficial, pelo rápido e pelo entretenimento vazio. Não se trata apenas de uma mudança de hábitos, mas de uma transformação antropológica silenciosa que afeta a subjetividade, a espiritualidade e a própria essência do que é ser humano .

 A Cultura do Descartável e o Império do "Ter"

Vivemos imersos no que o filósofo e psicólogo Jan Szmyd chama de "civilização técnica e de informação", sustentada por um sistema socioeconômico neoliberal. Este modelo, ao priorizar o consumo desenfreado e o hedonismo vulgar, troca o ideal de "ser" pelo de "ter". O resultado é um empobrecimento emocional e empático generalizado. As relações interpessoais, antes baseadas na confiança e na profundidade, transformam-se em relações instrumentais, formais e funcionais, onde o outro é visto apenas como um meio para um fim .

O escritor e ativista John F. Schumaker complementa essa visão ao descrever a sociedade de consumo como uma "cultura de celulose" (pulp culture), um banquete de brilhos e aparências. O cidadão ideal, nesse contexto, é um "terreno vazio" por onde os produtos e as novidades passam rapidamente, sem serem digeridos, garantindo que haja sempre espaço para mais. É a lógica do fast-food aplicada à existência .

As Redes Sociais e o Culto à Superficialidade

Se a televisão, como profetizou Neil Postman na década de 1980, começou a nos "entreter até a morte", as redes sociais aperfeiçoaram essa arte a níveis nunca antes vistos . O Dr. Hossam Badrawi, em sua análise sobre a cultura da trivialidade, aponta o dedo para plataformas como Instagram e TikTok. O que era para ser uma ferramenta de conexão e aprendizado frequentemente se transforma em um palco que glorifica a simplicidade vazia, a busca por fama instantânea e o conteúdo controverso, em detrimento do conhecimento e da análise profunda .

Esta dinâmica cria uma geração que consome passivamente "virais" e tendências, sem o exercício do pensamento crítico. O educador e pesquisador Noureddine Bouzar alerta para as consequências nefastas disso: um sistema de trivialidade que impõe valores como a mediocridade, a indiferença e o desengajamento com questões fundamentais, corroendo a capacidade dos indivíduos de tomar decisões informadas e de participar ativamente no desenvolvimento social .

A Morte do Diálogo e a Impotência Coletiva

Uma das consequências mais graves da banalização é a degradação do diálogo cultural e social. Em vez de discutirmos justiça, liberdade, desenvolvimento ou as crises planetárias iminentes, a sociedade é constantemente distraída por escândalos de celebridades, modas passageiras e conteúdos de entretenimento que em nada acrescentam à consciência coletiva .

O pesquisador Marshall Segal, inspirado por Postman, argumenta que a forma como consumimos informação é tão importante quanto o conteúdo. As mídias visais, ao priorizarem a imagem e a velocidade, nos ensinam a processar o mundo sem contexto, sem história e sem a necessidade de réplica. Somos bombardeados por informações irrelevantes que nos fazem sentir impotentes, pois sabemos de tudo um pouco, mas nada que nos permita agir efetivamente sobre a realidade à nossa volta. Sabemos mais sobre a vida de um atleta ou influenciador digital do que sobre as necessidades do nosso vizinho .

A Banalização da Existência e a Crise de Sentido

No cerne deste fenômeno, encontra-se uma crise de sentido profunda. A enciclopédia de problemas mundiais da União de Associações Internacionais descreve um cenário onde as pessoas, diante da complexidade e da velocidade das mudanças tecnológicas, sentem-se desprovidas de um senso central de história ou destino pessoal. A imagem de um universo racional e controlado ruiu, e com ela, colapsaram também as imagens do eterno, deixando um vazio existencial que a cultura de consumo tenta, em vão, preencher com objetos e entretenimento .

A banalização da vida é, portanto, a face visível de uma regressão antropológica. Como observou o escritor Alain Deneault, citado por Badrawi, "os triviais venceram a batalha em nosso tempo". Em um mundo onde os valores nobres e os princípios desaparecem, a corrupção programada do gosto, da ética e dos valores flutua à superfície. É a era dos "vagabundos descendentes": quanto mais a pessoa se afunda na vulgaridade e na baixeza, mais popularidade e fama ela ganha .

Diante deste quadro, a pergunta que fica é: será possível reverter o triunfo do trivial? A resposta, ainda incerta, passa por uma revolução na consciência que valorize a profundidade, a educação para o pensamento crítico e a coragem de resistir aos apelos sedutores, mas vazios, de uma cultura que nos convida a sermos meros espectadores da nossa própria existência .

                                                                                            W. Guimarães JR

domingo, 25 de janeiro de 2026

Do orelhão ao algoritmo: como o capitalismo transformou comunicação em alienação. Quando a informação era pouca, mas o povo pensava

Nos anos 1970, comunicar-se era difícil, limitado e desigual — mas, paradoxalmente, o povo pensava mais coletivamente. Telefone fixo era privilégio de poucos. Quem precisava falar com alguém usava a telefonia coletiva, enfrentava fila, horário e espera. O telégrafo ainda existia, restrito a empresas e ao Estado.

A informação chegava pelo rádio, pela televisão e pelo jornal impresso. O jornal vinha atrasado, é verdade, mas cumpria um papel importante de aprofundar os fatos. O rádio e a TV informavam mais rápido, porém havia algo essencial: todo mundo recebia basicamente a mesma notícia.

Isso não significava verdade absoluta, mas criava uma base comum. A partir dela, o povo discutia, discordava, tirava conclusões próprias. A opinião nascia da conversa no quintal, no trabalho, no bar, na fila do ônibus. Havia conflito de ideias, não confusão organizada.

A televisão como espaço coletivo e popular

A TV era um evento social. Vizinhos se reuniam para assistir ao noticiário, às novelas, aos programas de auditório, aos humorísticos e ao futebol. Filme tinha dia e horário. Ir ao cinema era um programa coletivo, não um consumo solitário.

A comunicação, apesar de controlada por poucos grupos empresariais, ainda era vivida coletivamente. Isso fortalecia vínculos sociais, senso de pertencimento e até a capacidade crítica do povo trabalhador.

Anos 1980: o consumo começa a substituir o encontro

Com a expansão do telefone fixo nos anos 1980, a comunicação ficou um pouco mais acessível. Mas, junto com ela, chegaram o videogame e o videocassete. O mercado descobriu que era possível trocar convivência por consumo.

A TV começou a perder espaço como ponto de encontro. Cada um passou a se isolar na própria diversão. Menos conversa, menos debate, menos construção coletiva. Aqui começa um processo perigoso: o esvaziamento da consciência social.

Não foi acidente. Foi projeto.

Anos 1990: mobilidade, velocidade e superficialidade

Nos anos 1990, o telefone celular surge como símbolo de modernidade. O telefone deixa de estar preso à parede e passa a acompanhar o indivíduo. Falar de qualquer lugar vira regra. Mas essa mobilidade vem junto com a aceleração da vida.

Tudo fica urgente. Tudo vira imediato. O tempo para pensar diminui. O tempo para consumir aumenta.

Depois de 2000: muita informação, pouca consciência

Com a internet, o discurso era de democratização da comunicação. Mas o que se consolidou foi outra coisa: a mercantilização total da informação.

Redes sociais, aplicativos de mensagem, plataformas de streaming e celulares cada vez mais sofisticados criaram a ilusão de liberdade. Na prática, entregaram o controle da informação a grandes corporações e aos algoritmos.

Hoje, a informação chega de todos os lados: algumas verdadeiras, muitas mentirosas, outras deliberadamente manipuladas. Não para informar, mas para confundir. Não para conscientizar, mas para induzir comportamento.

Influencers substituíram jornalistas. Opinião virou produto. Mentira bem embalada viraliza mais que verdade incômoda. O povo deixou de ser sujeito da comunicação e virou alvo dela.

A fábrica de idiotas não é erro — é estratégia

A fragmentação da sociedade interessa ao capitalismo. Pessoas isoladas não se organizam. Pessoas confusas não lutam. Pessoas manipuladas defendem interesses que não são os seus.

O algoritmo não quer verdade, quer engajamento. Não quer consciência, quer cliques. Não quer transformação social, quer lucro.

O resultado é uma sociedade hiperconectada e politicamente desarmada. Muita opinião pronta. Pouca reflexão. Muito ódio direcionado. Pouca organização popular.

Comunicação é disputa de poder

A tecnologia não é neutra. Nunca foi. A questão central é: quem controla a comunicação e a serviço de quem ela opera.

Ou a comunicação serve para libertar, ou serve para dominar. Ou fortalece o povo, ou fortalece o capital.

Resgatar a comunicação como ferramenta de organização, educação política e consciência de classe é tarefa urgente. Não basta consumir informação: é preciso disputar narrativa, construir mídia popular e devolver ao povo o direito de pensar por conta própria.

Olhar para o passado não é nostalgia. É aprendizado. Só entendendo de onde viemos é que poderemos decidir, conscientemente, para onde queremos ir.

No Política de Quintal, a gente não acredita em neutralidade. Acredita em lado. E o nosso lado é o do povo organizado, informado e consciente.

Porque comunicação não é entretenimento.
É luta de classes.

                                                                                           Wilson G Junior