segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

 O Triunfo do Trivial: Como a Sociedade Moderna Aprendeu a Banalizar a Vida

Por que, na era do excesso de informação, nos sentimos mais vazios e superficiais do que nunca? Especialistas apontam para um "sistema de trivialidade" que transforma relações, valores e a própria existência em mercadorias descartáveis.

Em um mundo hiperconectado, onde a tecnologia promete aproximar pessoas e democratizar o conhecimento, um fenômeno inverso e preocupante ganha força: a banalização da vida. O que antes era profundo, complexo e digno de reflexão tem sido sistematicamente substituído pelo superficial, pelo rápido e pelo entretenimento vazio. Não se trata apenas de uma mudança de hábitos, mas de uma transformação antropológica silenciosa que afeta a subjetividade, a espiritualidade e a própria essência do que é ser humano .

 A Cultura do Descartável e o Império do "Ter"

Vivemos imersos no que o filósofo e psicólogo Jan Szmyd chama de "civilização técnica e de informação", sustentada por um sistema socioeconômico neoliberal. Este modelo, ao priorizar o consumo desenfreado e o hedonismo vulgar, troca o ideal de "ser" pelo de "ter". O resultado é um empobrecimento emocional e empático generalizado. As relações interpessoais, antes baseadas na confiança e na profundidade, transformam-se em relações instrumentais, formais e funcionais, onde o outro é visto apenas como um meio para um fim .

O escritor e ativista John F. Schumaker complementa essa visão ao descrever a sociedade de consumo como uma "cultura de celulose" (pulp culture), um banquete de brilhos e aparências. O cidadão ideal, nesse contexto, é um "terreno vazio" por onde os produtos e as novidades passam rapidamente, sem serem digeridos, garantindo que haja sempre espaço para mais. É a lógica do fast-food aplicada à existência .

As Redes Sociais e o Culto à Superficialidade

Se a televisão, como profetizou Neil Postman na década de 1980, começou a nos "entreter até a morte", as redes sociais aperfeiçoaram essa arte a níveis nunca antes vistos . O Dr. Hossam Badrawi, em sua análise sobre a cultura da trivialidade, aponta o dedo para plataformas como Instagram e TikTok. O que era para ser uma ferramenta de conexão e aprendizado frequentemente se transforma em um palco que glorifica a simplicidade vazia, a busca por fama instantânea e o conteúdo controverso, em detrimento do conhecimento e da análise profunda .

Esta dinâmica cria uma geração que consome passivamente "virais" e tendências, sem o exercício do pensamento crítico. O educador e pesquisador Noureddine Bouzar alerta para as consequências nefastas disso: um sistema de trivialidade que impõe valores como a mediocridade, a indiferença e o desengajamento com questões fundamentais, corroendo a capacidade dos indivíduos de tomar decisões informadas e de participar ativamente no desenvolvimento social .

A Morte do Diálogo e a Impotência Coletiva

Uma das consequências mais graves da banalização é a degradação do diálogo cultural e social. Em vez de discutirmos justiça, liberdade, desenvolvimento ou as crises planetárias iminentes, a sociedade é constantemente distraída por escândalos de celebridades, modas passageiras e conteúdos de entretenimento que em nada acrescentam à consciência coletiva .

O pesquisador Marshall Segal, inspirado por Postman, argumenta que a forma como consumimos informação é tão importante quanto o conteúdo. As mídias visais, ao priorizarem a imagem e a velocidade, nos ensinam a processar o mundo sem contexto, sem história e sem a necessidade de réplica. Somos bombardeados por informações irrelevantes que nos fazem sentir impotentes, pois sabemos de tudo um pouco, mas nada que nos permita agir efetivamente sobre a realidade à nossa volta. Sabemos mais sobre a vida de um atleta ou influenciador digital do que sobre as necessidades do nosso vizinho .

A Banalização da Existência e a Crise de Sentido

No cerne deste fenômeno, encontra-se uma crise de sentido profunda. A enciclopédia de problemas mundiais da União de Associações Internacionais descreve um cenário onde as pessoas, diante da complexidade e da velocidade das mudanças tecnológicas, sentem-se desprovidas de um senso central de história ou destino pessoal. A imagem de um universo racional e controlado ruiu, e com ela, colapsaram também as imagens do eterno, deixando um vazio existencial que a cultura de consumo tenta, em vão, preencher com objetos e entretenimento .

A banalização da vida é, portanto, a face visível de uma regressão antropológica. Como observou o escritor Alain Deneault, citado por Badrawi, "os triviais venceram a batalha em nosso tempo". Em um mundo onde os valores nobres e os princípios desaparecem, a corrupção programada do gosto, da ética e dos valores flutua à superfície. É a era dos "vagabundos descendentes": quanto mais a pessoa se afunda na vulgaridade e na baixeza, mais popularidade e fama ela ganha .

Diante deste quadro, a pergunta que fica é: será possível reverter o triunfo do trivial? A resposta, ainda incerta, passa por uma revolução na consciência que valorize a profundidade, a educação para o pensamento crítico e a coragem de resistir aos apelos sedutores, mas vazios, de uma cultura que nos convida a sermos meros espectadores da nossa própria existência .

                                                                                            W. Guimarães JR

Nenhum comentário:

Postar um comentário