Da divergência democrática ao discurso de
eliminação do adversário: o Brasil precisa decidir se quer debate ou guerra
política.
Por
Wilson Guimarães Jr.
Colunista
do blog Política de Quintal
Nos
últimos anos o Brasil atravessou uma transformação preocupante na forma como
parte da sociedade passou a enxergar a política. O que antes era disputa de
ideias passou a ser tratado como uma guerra entre inimigos. E quando a política
vira guerra, a democracia passa a correr perigo.
Escrevo
estas linhas não apenas como observador da política, mas como alguém que vive
esse ambiente há décadas. Sou filiado ao Partido dos Trabalhadores desde o ano
2000. Não por modismo, nem por conveniência eleitoral. Por convicção. Sempre
enxerguei o partido como fruto das lutas do povo trabalhador e da defesa de
direitos sociais.
Mas ser
petista, para mim, nunca significou odiar quem pensa diferente. Democracia
existe justamente para que ideias distintas disputem projetos de país.
Posteriormente,
assumi responsabilidades dentro da organização partidária, atuando como Secretário
de Organização entre 2011 e 2013, contribuindo para a
estruturação política e o fortalecimento da militância.
Também tive a honra de exercer
o cargo de Secretário
de Finanças e Planejamento do partido entre 2017 e 2025,
período em que contribuí para a organização administrativa e financeira da
estrutura partidária.
A
partir de 2015,
passei a exercer a função de Chefe de Gabinete de vereador,
cargo que ocupo até hoje, trabalhando diariamente na interlocução entre o poder
público e as demandas da população.
Mais
do que cargos ou funções, o que define minha trajetória é a dedicação diária em
buscar soluções para os problemas da população e contribuir para uma sociedade
mais justa.
Quem
chega ao gabinete traz apenas um problema e a esperança de encontrar alguém
disposto a ajudar.
Essa é a
política real. A que acontece longe da espuma das redes sociais.
Mas foi
justamente nesse ambiente digital que começou a se espalhar um veneno perigoso:
a ideia de que o adversário político não é alguém com uma visão diferente de
país, mas um inimigo que precisa ser eliminado.
Durante o
período mais intenso da polarização política, tornou-se comum ouvir frases como
“tem que acabar com os petistas”, “tem que varrer a esquerda do mapa”. Para
alguns, isso parecia apenas retórica inflamada de campanha. Mas palavras têm
peso. Palavras constroem ambientes. E ambientes de ódio produzem consequências.
O mais
inquietante é quando esse discurso sai das redes sociais e entra dentro das
nossas próprias casas. Quando a política passa a dividir famílias, amizades e
comunidades.
Tenho
familiares que apoiaram e ainda apoiam Jair Bolsonaro. Isso, por si só, nunca
foi problema. Famílias sempre tiveram divergências políticas. O problema começa
quando a divergência se transforma em desumanização.
Foi então
que uma pergunta passou a me perseguir.
Se a
democracia tivesse sido rompida no Brasil — se um golpe tivesse realmente
acontecido — qual teria sido o destino de milhões de brasileiros identificados
com ideias de esquerda?
Professores, Sindicalistas, Militantes, Trabalhadores, Estudantes, Pessoas comuns.
E a
pergunta mais dura de todas: quando essas vítimas fossem nossos próprios
parentes, nossos amigos, nossos vizinhos… o que fariam aqueles que pensam
diferente?
Chorariam
seus mortos?
Ou
aplaudiriam o algoz?
A
história mostra que as grandes tragédias políticas começam exatamente quando
uma sociedade aceita a desumanização do outro. Quando um grupo passa a
acreditar que o outro não merece existir.
É assim
que nascem os regimes autoritários.
A
democracia não exige que todos pensem igual. Exige apenas que reconheçamos o
direito do outro existir.
O Brasil
não precisa de messias políticos nem de salvadores da pátria. Precisa de
maturidade democrática.
Podemos
discordar. Podemos votar em candidatos diferentes. Podemos defender projetos
distintos de país.
O que não
podemos aceitar é transformar brasileiros em inimigos dentro da própria nação.
Porque
quando a política vira ódio, ninguém vence.
E quando
a democracia morre, todos perdem.
